quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Faça o que eu mando, não o que eu faço

A revista CartaCapital de 18/01/2012 deu a seguinte notícia: 
"Em 11 de janeiro, um cientista nuclear iraniano foi assassinado na capital Teerã por assassinos de motocicleta que atiraram uma bomba em seu carro. É o terceiro a morrer em atentado, sem contar as misteriosas explosões que destruíram uma base de mísseis no local e danificaram uma instalação nuclear em Isfahan. O aiatolá Ali Khamenei acusou Israel e os EUA, e poucos, mesmo no Ocidente, duvidam de que ele tenha razão. Segundo o jornal francês Le Figaro, o Mossad [Serviço Secreto de Israel] tem recrutado rebeldes para cometer atentados a bomba contra o regime islâmico.”
Sei que esse tipo de crime dificilmente será desvendado, como tantos outros semelhantes, mas para mim não será surpresa se algum dia vierem a descobrir que os filhos do Tio Sam ou os descendentes de Jacó foram os seus orquestradores.

Os EUA, Israel e a ONU pressionam o Irã para suspender seu programa de desenvolvimento de energia nuclear. Temem que aquele país brevemente tenha condições de testar uma arma nuclear. O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos. Se eu acredito? Somente se eu fosse uma criança diria “sim”, mas também não estou dizendo “não”. Prefiro uma posição agnóstica quanto a isso.

Eu não tenho procuração para defender o Irã, inclusive faço sérias restrições à falta de liberdade naquele país e ao fundamentalismo religioso de grande parcela do mundo muçulmano, o que poderá levar o planeta a uma catástrofe bélica sem precedentes.

(Eu critico o fundamentalismo de qualquer vertente religiosa, inclusive do cristianismo ou judaísmo, pois são tão maléficos quanto o dos seguidores de Maomé.)

Mas os EUA e Israel não têm autoridade moral para exigir que o Irã pare seu programa nuclear. Têm o poder das armas, dos porta-aviões movidos a energia nuclear e o poder econômico para impor sanções ao mundo.

Os EUA têm o maior arsenal nuclear do planeta e planeja gastar cerca de US$ 700 bilhões de dólares com armamento nuclear ao longo da próxima década (veja http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1000072-potencias-nucleares-planejam-renovar-arsenais.shtml). E Israel também é detentor da tecnologia das armas nucleares. É a prática perversa, nojenta e hipócrita da máxima “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.

O Brasil, por sua vez, tem autoridade moral para exigir que a antiga Pérsia pare seu programa nuclear para fins bélicos – se é que ele é real –, pois não tem armas nucleares.

(Talvez devesse tê-las como último recurso de dissuasão. Se as grandes potências, encabeçadas pelo Tio Sam, a pretexto de que nós não estamos cuidando bem da Amazônia ou por causa do seu potencial energético e aquífero ou da sua biodiversidade, decidirem que aquela região é um bem comum a toda humanidade e resolverem invadi-la, como o Brasil irá defendê-la?)

Entretanto, o Brasil ainda não tem peso político para contrabalançar a força das grandes potências. O então Presidente Lula, com o apoio da Turquia, tentou um acordo com o Irã em 2010, como descreveu a revista ISTOÉ Dinheiro nº 659:
“Ao insistir no diálogo a todo custo com o Irã, inclusive pessoal – ninguém sai ileso ao apertar a mão de ditadores, inimigos da democracia e violadores de direitos humanos, adjetivos atribuídos a Ahmadinejad –, Lula venceu resistências e obteve concessões dos iranianos. Estes aceitaram em transferir parte de suas reservas de urânio enriquecido para a Turquia. Não resolve a questão, mas é um bom avanço na direção de uma solução negociada que impeça um ataque militar ao Irã.”
Lula em Teerã, capital do Irã, em maio/2010
Lamentavelmente, o acordo foi boicotado pelas grandes potências, não sei se por ciúme ou porque precisam de um pretexto para “colocar as mãos” no petróleo do Irã a todo custo, inclusive de uma guerra.   

Sou contra a guerra. Acho a guerra uma das maiores imbecilidades perpetradas pelo ser humano, porém, lamentavelmente, ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Só os canalhas e os de espírito pequeno a incentivam. E há muitos por aí, pelo mundo afora. Moram em castelos ou palácios coloridos pelo arco-íris a girar, porém a história os mostrará como a escória da civilização.

Acho que o mundo deveria se ver livre das armas nucleares. Se o Brasil e o Irã não podem tê-las, tampouco os EUA e Israel e as outras nações têm esse direito. Algo diferente disso é pura hipocrisia.

Para os EUA, já que se trata de uma nação cristã, há uma mensagem bem objetiva do Mestre do cristianismo, que cabe perfeitamente na questão. Todavia, parece-me que, quando se trata de questões de estado, isso e nada têm o mesmo valor. Mas ei-la assim mesmo:
“E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?
Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão.”
Resta-me, entretanto, uma grande dúvida: será que as águias da Casa Branca e do Pentágono consideram os iranianos/muçulmanos seus irmãos?

Quanto a Israel..., bem, quanto a Israel não sei o que dizer. Certamente a mensagem acima não lhe toca, pois ainda aguarda o Messias. Talvez para os falcões de Jerusalém o que vale mesmo é a máxima do Mestre do judaísmo: “Olho por olho; dente por dente”.

Saulo Alves de Oliveira