segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Na Alemanha, pastores apoiaram Hitler. E no Brasil?

Durante muitos anos, rigorosamente todos os domingos, eu frequentei a Escola Dominical e as Reuniões da Mocidade da Igreja. Naquelas ocasiões, era muito comum alguém ensinar que se deve oferecer a outra face, isto é, “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”.  Para mim, não é nada fácil cumprir tal mandamento.

Também li muitas vezes na Bíblia que “Bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” ou “Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis”. Mas, que interessante! Parece que essas máximas não têm mais nenhum sentido nos dias de hoje, não é mesmo? Sua aplicação prática limitou-se à época de um certo cidadão que andou pelas terras da Palestina há cerca de 2.000 anos e, mesmo na cruz, perdoou os seus algozes. Ou estou enganado?

Mesmo relutante, estou no limiar entre não aceitar essa conclusão e aceitá-la definitivamente, pois as circunstâncias atuais no Brasil assim o determinam. Realmente, confesso, é muito difícil dar a outra face ou abençoar e não amaldiçoar. E, no meu caso, acho que estou muito aquém, mas muito aquém mesmo do andarilho da Palestina. 

Para quem passou grande parte da sua vida ouvindo dos seus líderes religiosos certos ensinamentos, tais como “amar ao próximo como a si mesmo” e “dar a outra face” – não que eu me considere um exemplo a ser seguido quanto a esses dois preceitos; na realidade não me considero exemplo para ninguém –, ver grande parte das igrejas evangélicas e seus líderes apoiarem em peso alguém que prega “Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito”, “Nós não devíamos só torturar. Devíamos torturar e matar" ou “O cara tem que ser arrebentado para abrir a boca", é profundamente decepcionante e me faz repensar muita coisa, além do que já venho fazendo há muitos anos. Acho que o momento atual só reforça ainda mais minhas constatações. Chocantes, mas libertadoras.

Aliás, não se trata mais de decepção. Já passei da fase das ilusões. Depois de tantos exemplos negativos, já não alimento mais as boas expectativas. É claro que há saudáveis exceções. Caso os bons exemplos se confirmem, os aplaudirei com satisfação. Caso contrário, os verei como símbolos da degradação humana. Portanto, observo os maus exemplos, não poucos, apenas com um misto de tristeza e indignação, sabendo, porém, que essa é a realidade e que eu não posso mudá-la.

Líderes que um dia admirei e respeitei – eu diria que de certa forma até os segui –, pois me ensinaram coisas que ainda hoje observo, visto que são essenciais para a vida. Todavia, suas posturas atuais reduziram suas estaturas a um nível de pequenez tal que hoje apenas os respeito, como seres humanos, da mesma forma que me sinto compelido a respeitar quaisquer dos meus semelhantes que dividem comigo este planeta.

No entanto parece que o que vemos hoje não é algo inédito. Segundo o pastor Hermes Fernandes situação semelhante já aconteceu – não exatamente igual, mas em proporções bem maiores, pelo menos por enquanto – na Alemanha nos anos 30.

Lamentavelmente, como disse o pastor Hermes Fernandes, cujo texto completo você pode ler aqui: “Não é a primeira vez que líderes evangélicos apoiam o fascismo. Dentre os 17 mil pastores evangélicos que havia na Alemanha, nem 1% se negou a apoiar o regime nazista. Protestantes ouviram seus líderes insistindo que cooperassem com Hitler”.

sábado, 12 de setembro de 2020

Porque não bloqueio

Por Saulo Alves de Oliveira

Já me bloquearam algumas vezes no Facebook. De vez em quando eu exclamo para mim mesmo: “Puxa, aquele ‘amigo’ não é mais meu amigo!”

Algumas pessoas conhecidas – é verdade que estamos afastados fisicamente há bastante tempo – também não aceitaram meu pedido de amizade. Evidentemente, elas não têm obrigação alguma de aceitá-lo. Felizmente ainda somos livres para escolhermos aqueles com quem queremos nos relacionar. Tal fato tem o seu lado bom para todos nós. Lembrar-nos de que não somos tão importantes assim ou indispensáveis. É uma espécie de alerta – um chamado à reflexão – àqueles que avaliam a si próprios com arrogância, pois se julgam superiores aos seus semelhantes e certamente consideram-se em um nível – quem sabe não só um nível, mas vários! – acima dos demais mortais.   

Na acepção mais pura do termo, as pessoas que me bloquearam não eram propriamente amigas. O interessante, porém, é que eu as conheço há muitos anos.

As razões, até onde alcança minha percepção, são basicamente três:

1) Políticas – estamos vivendo um momento muito conturbado em relação a esse aspecto da vida nacional. Se não nos policiarmos, até mesmo familiares se afastarão por discordâncias políticas;

2) Religiosas – incluindo-se aí alguns questionamentos referentes a Deus, à Bíblia e à fé;

3) Combate à divulgação de notícias falsas, as tais “fake news” – tenho procurado questionar essa prática desonesta e tenho a impressão de que algumas pessoas se sentem incomodadas.

Por outro lado, se bem me lembro, eu já bloqueei três “amiga(o)s”.

A primeira – porque foi extremamente deselegante ao responder a um comentário meu. Como se não bastasse, disse ainda que, se eu quisesse, podia bloqueá-la, pois, para ela, não tinha a menor importância. Algum tempo depois, não sei por qual razão, ela apareceu novamente entre os meus amigos e assim continua até hoje. 

O segundo – porque divulgou uma mentira tão desavergonhada que não me restou outra alternativa a não ser questioná-lo. Ao ser questionado, eu percebi que esse “amigo” tinha plena consciência do que fizera, pois a divulgação da mentira fora proposital.

A terceira – porque fez comentários deselegantes em uma postagem minha e, ao fazê-lo, iniciou-se um choque ou uma discussão “quente” entre tal pessoa e um familiar meu. Portanto, a fim de evitar um desentendimento maior, julguei prudente bloqueá-la. 

Eu já li comentários bastante ácidos, tolos ou fanáticos em minhas postagens. Por esse motivo mais de uma vez me perguntaram: “Por que você não bloqueia Fulano e Beltrano?”

Evidentemente, há justificativas para não bloqueá-los. Não me refiro àquelas pessoas que simplesmente discordam das minhas ideias ou argumentos, pois discordar, com educação, é democrático, é da vida. Me refiro a não bloquear mesmo aqueles “amigos” que fazem comentários tolos e muitas vezes agressivos. É claro que há um limite para tudo, uma linha vermelha, e eu penso que sei identificar o momento certo para bloquear, se for o caso. Eu citei acima três exemplos que estão de acordo com este último pensamento.

Existem razões para não bloquear os meus “antagonistas” e respostas aos que me questionam.

Primeiro, se eu bloquear todos aqueles que não estão em sintonia com minhas proposições ou com os meus argumentos ou que criticam as minhas ideias, com certeza serei conduzido a um gueto onde só haverá mentes mais ou menos iguais a minha. Deve ser monótono viver em um mundo de pensamento único.

Da mesma forma, se todos os outros bloquearem os seus antagonistas, certamente estes e aqueles também terminarão em guetos cercados de pessoas cujas mentes serão apenas clones umas das outras.

Segundo, eu não sou um homem de TV, rádio ou jornal, ou um escritor famoso, portanto as redes sociais são os meios de que disponho para divulgar aquilo que julgo importante, as ideias que tenho acerca da política, da vida, de Deus, da religião, da igreja, da fé, etc. Mesmo correndo o risco de ser hostilizado ou de perder amizades eu sei que também há o risco ou a possibilidade de que alguém pare para refletir sobre algum tema exposto por mim, ao qual talvez de outra maneira não teria acesso, especialmente se estiver confinado a um grupo dos seus iguais.

Portanto, enquanto não ultrapassarem a minha linha vermelha, a palavra bloqueio fica em “modo de espera”.    

sábado, 15 de agosto de 2020

Pedro, o Apóstolo, se equivocou ao falar “E nos últimos dias acontecerá...”?

Por Saulo Alves de Oliveira

Ao reler o livro dos “Atos dos Apóstolos”, algo chamou minha atenção.

Cerca de 50 dias (?) após a morte de Jesus e quando este já havia subido ao Céu ocorreu um evento envolvendo seus discípulos que ficou conhecido como “O dia de Pentecostes”. Naquela oportunidade, deu-se a descida do Espírito Santo, o Consolador, conforme prometido por Jesus: “Ficai em Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder [ou do Espírito Santo]” – Lc.24.49; At.1.4,5; Jo.16.7. 

Então, Pedro, sempre inquieto e determinado, fez um memorável discurso. Eis parte das suas palavras:
“Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo esta a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão...” –At.2.15-18
Acho que basta até aqui.

Pedro, ao que tudo indica, como pode-se deduzir das suas palavras, relacionou aquele evento, isto é, “O dia de Pentecostes”, à profecia de Joel, cujo cumprimento se daria nos últimos dias.

No entanto, apesar desta possível interpretação que faço das palavras do discípulo pescador, pergunto: ao afirmar que os fatos relatados no texto acima eram acontecimentos que estavam ocorrendo “... nos últimos dias...”, portanto ele, o próprio Pedro, estava vivenciando os últimos dias, o que realmente o Apóstolo quis dizer?

Já se passou muito mais tempo entre Pedro e os nossos dias – quase 2.000 anos – do que entre a profecia de Joel e os dias de Pedro – possivelmente cerca de 800 anos ou menos. Todavia, os “últimos dias” não aconteceram no tempo de Pedro nem ao longo dos últimos 2.000 anos e, como está evidente, nem ainda no nosso tempo.

Ao lermos outros textos bíblicos tem-se a impressão de que outros discípulos também assim pensavam, isto é, que os últimos dias se dariam nos tempos das suas vidas, inclusive com a segunda vinda de Jesus. O próprio Jesus criou essa expectativa ao afirmar:
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.” – Mt.24.34
“Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.” – Mt.16.28
Portanto, teria Pedro se equivocado ao interpretar as palavras do profeta Joel?

Pedro acreditava que a volta de Jesus se daria naquele tempo?

Se suas palavras são Escrituras, como justificá-las, considerando-se que os últimos dias não se deram no tempo de Pedro?

Ou quem está equivocado sou eu?

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Abraão e o sacrifício (ou seria tortura?) de Isaque

Por Saulo Alves de Oliveira

O sacrifício de Isaque" | Bible art, Painting, Art

Se quiser relembrar a história você pode lê-la no livro do Gênesis, capítulo 22, versículos 1 ao 18.

Há vários episódios marcantes na vida do patriarca Abraão, o homem que deu origem aos israelitas e aos árabes. No entanto eu quero ressaltar apenas dois casos. No primeiro episódio, sua atitude foi louvável e, de certa forma, corajosa. No outro, todavia, seu comportamento foi no mínimo questionável. Refiro-me aos eventos relacionados à destruição das cidades de Sodoma e Gomorra e ao quase assassinato – ou seria tortura psicológica? – do seu filho Isaque, respectivamente. 

No episódio de Sodoma e Gomorra, Deus diz a Abraão que irá destruir as duas cidades por conta dos pecados dos seus habitantes. Abraão, neste caso, tem um comportamento moral digno de ser ressaltado. Ele argui, pondera, questiona e faz sugestões a Deus.

E se houver 50 justos naquelas cidades... 45 justos, 40, 30, 20, 10... Abraão negocia com Deus e, em certa medida, é vitorioso, pois em todos os casos Deus lhe responde: “Não destruirei as cidades”.

Nos eventos relacionados às cidades de Sodoma e Gomorra, Abraão não parece aquele homem de personalidade tímida, sem coragem para reagir, um fraco, quando Deus lhe pede que sacrifique seu filho Isaque e ele aceita pacificamente, sem esboçar qualquer reação que demonstrasse minimamente sua insatisfação. Isaque seria assassinado e queimado em holocausto.
    
Imagine-se no lugar de Isaque. Imagine-se amarrado e deitado sobre a lenha em cima de um altar. Imagine agora que essa lenha se transformaria em uma fogueira que carbonizaria seu corpo, fogueira que normalmente era usada para queimar animais sacrificados. Sinta o que Isaque sentiu no exato momento em que vê seu próprio pai levantando uma faca para cravá-la no seu peito ou então cortar-lhe a garganta! (sic)

Imaginou? Sentiu?

Sim, pode-se argumentar, na hora “h” ele foi salvo. É verdade, mas não sem antes sofrer toda a agonia inerente àquele que está nos últimos momentos da caminhada para enfrentar a forca ou a câmara de gás ou o pelotão de fuzilamento. Isaque não sabia que seria salvo no último instante, portanto deve ter experimentado todos os terrores e angústias próprios de quem está encarando os rostos dos seus executores com os rifles apontados para o seu coração e aguarda a palavra final “atirar”.  

(Há uma história similar mais recente de alguém que foi salvo da morte instantes antes da sua execução. Conta-se que o grande escritor russo Fiodor Dostoiévski foi condenado à pena de morte em 1849 por razões políticas. Quando estava diante do pelotão de fuzilamento, Dostoiévski recebeu a notícia de que sua condenação à morte havia sido revogada e ele foi enviado para trabalhos forçados na Sibéria.)

Aquilo deve ter sido insuportável, certamente muito prejudicial, para a formação de um jovem de apenas 20 anos. 20 anos? Não sei. Talvez.

Há várias versões para a idade de Isaque no momento do triste episódio: 20 anos, 25, 30, 33 ou 37. O dicionário bíblico de John D. Davis, baseado no historiador Flávio Josefo, afirma que Isaque tinha por volta de 25 anos naquela ocasião

Por sua vez, as várias versões da Bíblia o tratam como rapaz, menino, moço, garoto ou mancebo, portanto parece-me razoável aceitar que Isaque era ainda muito jovem, a ponto de submeter-se ao seu pai – um homem respeitado, porém um velho com bem mais de 100 anos –, deixando-se amarrar para o sacrifício, mas certamente suficientemente forte para caminhar três dias a pé até próximo ao local do sacrifício e depois mais algum tempo com a lenha do holocausto sobre as costas, que certamente era uma porção razoável, suficiente para queimar um corpo humano, tendo ainda que subir até o alto de uma montanha, onde se daria a terrível cena que eu em hipótese alguma gostaria de presenciar.

Todavia, é de somenos importância a idade de Isaque quando o quase sacrifício ou, talvez melhor, a tortura se deu. Sob qualquer ângulo moral, parece-me que ele foi submetido a uma tortura inominável.

Seria interessante que o escritor do Gênesis tivesse registrado a forma como Abraão convenceu seu filho a deixar-se amarrar e entregar-se para o sacrifício. Há várias hipóteses, sem respaldo bíblico, obviamente. Trata-se apenas de especulações, porém não foge ao escopo deste comentário, porquanto de alguma forma Abraão deve ter convencido o filho ou então deve ter feito uso de algum estratagema para amarrá-lo.

Permita-me conjecturar sobre quatro possíveis respostas para esta questão.

1 –  Isaque era um jovem extremamente obediente e foi convencido pelo pai que aquela era a vontade de Deus. Quem sabe com alguma promessa de vida após a morte! Esta é a conjectura que melhor se adapta ao que foi dito acima, porém nada me autoriza a afirmar que assim aconteceu.

2 – Eles travaram alguma luta corporal e, apesar da idade, de alguma forma Abraão foi o vencedor.

3 – Abraão administrou, à agua ou comida do filho, alguma substância indutora do sono que o fez perder os sentidos e entrar num sono profundo.

4 – Abraão aproveitou algum descuido do filho e fê-lo desmaiar com uma pancada na cabeça.

Se a primeira opção não é a verossímel, certamente Abraão deve ter feito uso de alguma técnica ou recurso desconhecido para amarrar o filho, colocá-lo sobre a lenha em cima do altar, sem reação contrária de Isaque, e em seguida levantar a mão com o cutelo – ou faca – para assassiná-lo.  

Realmente, são só conjecturas.

Concluindo, eu tenho a impressão de que o episódio foi tão traumático para Isaque que o marcou por toda a vida. Não posso deixar de associar esse episódio ao fato de Isaque ter sido uma figura com pouco brilho na Bíblia. Certamente o menor e o mais inexpressivo dos três patriarcas, os pais do povo hebreu.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Deus pune hoje o pecado que será cometido só no futuro?

Por Saulo Alves de Oliveira

Há algum tempo eu ouvi o testemunho de uma senhora em uma igreja evangélica. Ela fizera uma recente viagem a um país muito conhecido e contava detalhes da sua experiência. Ela e seu marido são meus conhecidos há muitos anos, apesar de não ter, com os dois, relacionamento muito próximo, apenas pouquíssimos contatos pessoais, restringindo-se basicamente a um “Olá, como vai?” ou “Tudo bem?”

Dentre os vários assuntos abordados naquela noite, ela disse que ficara chocada quando leu pela primeira vez na Bíblia que Deus mandara Israel eliminar todo o povo filisteu, incluindo as crianças. Como pode, perguntara ela na época, Deus mandar matar inocentes? Acredito que ela se referia ao povo amalequita, como se pode constatar no texto abaixo.
“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Castigarei Amaleque pelo que fez a Israel: ter-se oposto a Israel no caminho, quando este subia do Egito.
Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos.”
1 Samuel 15:2,3
Todavia, depois de refletir sobre o assunto, ela chegou à conclusão que Deus conhece todas as coisas, inclusive o futuro. Onisciente, Deus sabia que todas aquelas crianças, quando adultas, seriam pessoas más, desobedientes, adoradoras de outros deuses. Deus, portanto, mandou Israel eliminar o mal previamente (sic). Dessa forma, segundo seu entendimento – e certamente para resolver seu drama espiritual e intelectual –, a questão estava resolvida, simples assim.

Resumindo: Deus puniu pessoas, obviamente milhares de crianças, de todas as idades, de peito à primeira adolescência, pelos pecados que seriam cometidos apenas no futuro, apesar do fato de que aqueles seres humanos não tinham ainda a menor noção de pecado, nem sequer tinham consciência de que um dia, quando adultos, iriam ou não cometê-lo. Realmente, o deus de certas pessoas me deixa intrigado, suas atitudes são muito complicadas, difíceis de entender e questionáveis. Punir hoje uma criança pelo pecado que ela cometerá somente no futuro, é algo não moral sob quaisquer aspectos. Não seria mais racional e moral evitar que aquelas crianças viessem ao mundo?

Isso faz-me lembrar a história de uma pessoa conhecida que, criança nos anos dez do século passado, passou por uma experiência inusitada. Certa vez seu pai lhe pediu que fosse à cidade com alguma incumbência, mas advertiu: “Vá e volte imediatamente, não se desvie da sua tarefa, venha para casa assim que terminá-la”. Certo meu pai, respondeu o garoto e se encaminhou para a porta da casa. Ao chegar à porta, o pai exclamou: “Espere, venha cá, como eu sei que você irá me desobedecer, vou lhe bater antecipadamente”. E surrou o filho. Portanto, o filho foi punido previamente pelo “pecado” que ainda não tinha cometido. Ainda bem que o padrão moral e de justiça dos meus pais era bem mais elevado.

Eu fico profundamente impressionado com o fato de alguns crentes se autoconvencerem tão facilmente da justiça ou da normalidade de coisas tão perturbadoras. Isso não incomoda você?
   
Enquanto ela falava, alguns nomes ou acontecimentos da história da humanidade vieram à minha mente: Herodes, assassinato das crianças abaixo de 2 anos no tempo do menino Jesus, Nero, Calígula, Santa (sic) Inquisição, Noite de São Bartolomeu, detratores de Giordano Bruno que o queimaram “vivo” na fogueira no ano de 1600, Rei Leopoldo II, da Bélgica, genocídio no Congo, Hitler, Holocausto, milhões de seres humanos torturados e mortos, Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Stalin, dezenas de milhões de assassinatos, Brilhante Ustra, Idi Amin Dada, ditadores, torturadores e assassinos pelo mundo afora...

Eu sei que já perdi amizades por conta dos meus questionamentos, o que lamento profundamente, e, é provável, alguns já me colocaram no índex dos hereges, indigno, portanto, de receber sequer um “olá”. Todavia, meus amigos – peço desculpas pois não quero ferir a sensibilidade de ninguém –, não dá para não concluir:

E Deus, nesses terríveis casos, resolveu não agir previamente.

terça-feira, 12 de maio de 2020

E daí?

Por Saulo Alves de Oliveira
  
É prerrogativa do Presidente da República nomear ou demitir ministros e outros ocupantes de cargos de confiança do Governo Federal, como é o caso do Diretor-Geral da Polícia Federal, logicamente em entendimento com o Ministro da Justiça, a quem a PF está subordinada. Isso é ponto pacífico, não há o que se discutir. Entretanto...

Polícia Federal investiga os filhos do presidente, acusados de possíveis crimes.

Filhos do Presidente da República têm um amigo que é delegado da PF.

Presidente resolve substituir o Diretor-Geral da PF e colocar em seu lugar o amigo dos filhos do presidente, que vai comandar o órgão que investiga os filhos do presidente.

Para ficar claro: a PF que investiga os filhos do presidente vai ser comandada por um amigo dos filhos do presidente.

E daí?

O presidente, seus filhos e seus apoiadores não acham nada demais.

Para quem ainda não entendeu a gravidade da situação, gostaria de desenhar, mas infelizmente não dá.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Tudo pode ser questionado

Por Saulo Alves de Oliveira

Na Ciência não há verdades absolutas, tudo pode ser questionado.

Imagine a Teoria Científica mais importante...

Imaginou?

Pensou na Teoria da Gravidade, de Isaac Newton? Na Teoria da Relatividade, de Albert Einstein? Na Teoria Quântica, dos alemães Werner Heisenberg e Max Born, dentre outros? Na Teoria do Big Bang, proposta inicialmente pelo físico e padre belga Georges Lamaître? Ou ainda na Teoria da Evolução, de Charles Darwin?

Todas essas Teorias podem ser questionadas.

Se uma nova Teoria explicar melhor um determinado fenômeno físico ou natural, a velha Teoria é abandonada e a nova toma o seu lugar, até que eventualmente novos conhecimentos levem ao surgimento de uma Teoria ainda melhor.

Um conhecimento científico ou uma teoria científica podem mudar? Sim, desde que alguém apresente evidências que contrariem o que está estabelecido. Tais evidências serão examinadas por toda comunidade científica e, se confirmadas, uma nova “verdade” reinará.

Um exemplo. Há décadas houve uma grande discussão entre os cientistas que defendiam um Universo estacionário, eterno e imutável, e os que defendiam um Universo com início no Big Bang e em expansão. O próprio Einstein, pelo menos no início, defendia a primeira ideia. A segunda hipótese, entretanto, foi a vencedora, pois todas as evidências apontavam para isso.

O maior defensor do Universo estacionário foi o físico e astrônomo britânico Fred Hoyle, que nasceu em 1915 e morreu em 2001 sem dar o braço a torcer. Foi Hoyle quem criou o termo “Big Bang” em 1949 de forma pejorativa. Todavia, para seu desgosto, o termo pegou e hoje é a expressão que dá nome à mais importante Teoria que explica o surgimento do Universo há cerca de 13,8 bilhões de anos.

E assim a Ciência vai corrigindo-se. Talvez seja a única área do conhecimento humano que tem essa virtude de corrigir-se a si próprio.

Essa é a beleza fantástica do conhecimento científico. Ninguém, absolutamente ninguém é o dono ou dona da verdade.

A Ciência É, certamente, a mais bela e fantástica experiência do conhecimento humano.