quarta-feira, 20 de maio de 2015

Estou vacinado

Por Saulo Alves de Oliveira

Eu não escrevo ou digo alguma coisa pensando que vou mudar a cabeça de alguém. Não é meu propósito convencer ninguém de coisa alguma. Cada um creia no que quiser e achar conveniente. 

Quer acreditar no testemunho de alguém que diz que em sonho ou visão foi ao céu e/ou ao inferno? Quer acreditar que é a “voz” de Deus que fala quando alguém está pregando no púlpito de uma igreja? Para mim, tudo bem. Faça da sua fé aquilo que achar mais conveniente e que certamente lhe satisfaz.

Às vezes o que eu escrevo ou digo é apenas um desabafo de alguém que há alguns anos despertou de um grande sono. Se bem que o meu sono nunca foi muito profundo.

Eu penso que alguns líderes evangélicos – pastores, bispos, apóstolos, missionários – pensam que todos que lhes escutam são uns grandes idiotas, imbecis, dados a parvoíces.

Todos os dias entre meio-dia e uma da tarde eu vou buscar minha neta na escola e às vezes sintonizo o rádio do carro em uma emissora evangélica.

Dias atrás eu estava ouvindo um pastor falar. É um pastor que apareceu há pouco tempo na TV e rádios da nossa região.

É inacreditável como esses homens são tão cretinos ao pedir dinheiro.

Eles usam uma passagem bíblica – naquela oportunidade foi acerca das pragas do Egito – e, depois de um palavreado bonito, fazem medo às pessoas, para em seguida apresentar o golpe.

Qual foi a insinuação naquele dia? “Tal qual os hebreus foram poupados da quarta praga, você também será poupado das dificuldades se contribuir com a ‘obra’ de Deus.”

“Portanto, vá ao banco ‘A’ ou ‘B’ e deposite o seu dízimo numa dessas contas ‘x’ ou ‘y’. Deposite também uma oferta alçada no valor do dízimo ou maior.”

Eu fico boquiaberto com o cinismo com que o indivíduo faz sua proposta indecorosa. Desavergonhadamente!

Está precisando de dinheiro, pastor? Faça como Jesus ensinou em Mt. 6.6. E não se exponha ao ridículo. Será que eles, que tanto pregam acerca da fé, acreditam mesmo que apenas orando secretamente Jesus vai mandar dinheiro para a “obra”? Duvid-o-dó!

O mais famoso deles, que por sinal está muito rico, disse uma vez descaradamente: “Tem que pedir mesmo, não precisa ter vergonha. Se tiver alguém que não der, tem um montão [de bobocas] que vai dar”.

É isso aí, meus amigos. Como já disse, não pretendo convencer ninguém. É apenas um desabafo.

Uma gota não fará diferença no oceano. Não sou tolo o suficiente para admiti-lo. 

É claro que nada vai mudar com as minhas palavras. Eles ficarão cada dia mais ricos, pois existem “cegos” que são guiados por quem “enxerga” muito bem. Todavia, fico feliz porque as pessoas que estão muito próximas a mim compartilham das minhas preocupações e já estão vacinadas contra essa canalhice.

A minha esperança é que, quando um dia o nível cultural do nosso povo alcançar o de certos países europeus, talvez esses oportunistas sejam varridos para sempre da nossa terra. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O filho de Bate-Seba

Por Saulo Alves de Oliveira

Uma inocente criança pagou pelo erro do seu pai. E o que mais me estarrece: o castigo foi ordenado pelo próprio Deus (sic).

Recentemente eu ouvi um comentário acerca dos personagens bíblicos Davi – o maior, mais famoso e mais festejado rei de Israel –, Urias e Bate-Seba. Esta última, mulher do segundo. E fiquei a pensar sobre a história registrada na Bíblia em 2 Sm. 11 e 12.

Um resumo: Davi mandou matar Urias para ficar com sua mulher, Bate-Seba. Dessa união nasceu um filho. Deus não gostou da atitude de Davi e, como castigo pelo erro do rei, matou a criança. E o pior: ao que tudo indica, não foi uma morte rápida e sem sofrimento. A criança passou sete dias agonizando antes de morrer.

Quer dizer, o filho pagou pelo pecado do pai. Julgo que não há dúvidas quanto a isso.

Eu não preciso analisar esse caso à luz da Bíblia para fazer este questionamento. Os meus princípios morais e éticos me dizem que ninguém deve pagar pelos erros de outrem. Entretanto, como há pessoas que procuram na Bíblia justificativa para tudo – apesar disto não ser possível –, eu vou fazer citações bíblicas que fundamentam o que estou questionando.

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” Ez. 18. 20

“Não se farão morrer os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada qual morrerá pelo seu próprio pecado.” Dt. 24. 16

Portanto, se o crime foi cometido por Davi, não seria ele o único que deveria pagar ou sofrer as consequências do seu próprio erro?  

Realmente, há não poucas histórias na Bíblia que eu não consigo entender e para as quais também não encontro explicações racionais.

Alguém pode afirmar: “Ah, Saulo, as coisas de Deus só se entendem pelo Espírito de Deus”. É, talvez a minha espiritualidade não esteja lá em um nível tão elevado assim e isso impede o meu homem espiritual de entender certos aspectos relacionados a Deus como registrados na Bíblia.

Pois então, alguém que já teve a revelação de Deus no tocante a essa história pode me dar uma explicação razoável e satisfatória para tais acontecimentos, posto que, quanto a mim, por mais que eu me esforce, não consigo encontrá-la.

(E esse não foi o único episódio lamentável envolvendo Davi, “um homem segundo o coração de Deus”.)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Apenas um placebo

Por Saulo Alves de Oliveira

O fato de você acreditar que um asno é um cavalo ou um avestruz é uma águia não fará do asno um cavalo nem do avestruz uma águia. O asno sempre será um asno e o avestruz sempre será um avestruz.

Você pode acreditar em algo simplesmente porque lhe traz conforto e consolo, mas tal fato não é suficiente como prova de que sua crença não está restrita ao mundo do imaginário, ainda que coletivo. Simplesmente acreditar não transforma o irreal em algo tangível, concreto.

Bom, esta é minha opinião: se você prefere não conhecer a verdade porque a mentira é reconfortante, é um direito seu. Só você pode decidir. Quanto a mim, prefiro uma verdade que machuca a uma mentira consoladora.  

Crianças acreditam em Papai Noel e isso é maravilhoso para elas. Foi para mim também quando criança. Mas Papai Noel simplesmente não existe. Por mais que alguém acredite em fadas, duendes, gnomos ou lobisomens, tais seres não existem.

Veja a que ponto chega a crendice popular. Pessoas acreditam que tomar um copo de água “ungida” ou água do rio Jordão lhes trará algum benefício. 

Eu fico atônito, em perplexidade com o fato de alguém pregar e muitos incautos acreditarem que o ato de tomar um copo de água “ungida”, água orada, água benzida, água consagrada trará benefícios para alguém. Água é simplesmente H2O, seja “ungida” ou não. Me incomoda, aliás, me entristece profundamente o fato de em pleno século 21 pessoas ainda se deixarem levar por essas e tantas outras crendices tolas e até infantis.

Resquícios medievais em pleno século da razão.

Água do rio Jordão, óleo santo, folha de arruda, sal grosso, oração forte, benzedeira, “despacho”, leitura de cartas, caixinha de promessas, rezar Ave Maria, sinal da cruz, ofertar, passar fome, pano santo, suor santo, oração no monte, fixar uma mezuzá na porta, flagelar o próprio corpo, tornar-se “parceiro” de Deus, “semear” alguns reais, depositar na conta de tal igreja, etc. Há muito mais. Meu Deus! É tanta superstição que me assusta. E afronta a inteligência humana.

Simples placebos!

Se alguma coisa boa acontecer na vida de alguém após tomar água “ungida” ou consagrada, só tem duas explicações: 1) autossugestão, que faz a pessoa se empenhar mais em relação a algum propósito, alcançando-o com mais facilidade; ou 2) evento natural que acontece na vida de qualquer pessoa, com ou sem água “ungida” ou outra crendice qualquer.

(Na realidade, a palavra não é exatamente “crendice”, mas, para não ser agressivo, fica “crendice” mesmo.)

É muito simples chegar a essa conclusão. Observe a vida das outras pessoas, que têm fé ou não ou que têm fé diferente da sua, às vezes totalmente contrária à sua. Quando não totalmente céticas. E tudo lhes sucede exatamente da mesma forma, derrotas e vitórias, curas e não curas, sucesso e insucesso, vida e morte, com ou sem água “ungida”.   

terça-feira, 17 de março de 2015

Cada pessoa é um somatório de valores

Por Saulo Alves de Oliveira

Bom seria se o resultado fosse sempre positivo, mas nem sempre isso acontece.

Será que eu estou acima ou abaixo do zero? Pergunta intrigante para mim.

Cada ser humano é o resultado de um somatório de valores acumulados ao longo da sua vida. Esse resultado se expressa nas opiniões ou nas atitudes, que nem sempre coincidem com as nossas. E coincidir não é indispensável. Indispensável é o respeito.

Às vezes as opiniões são generalizações desrespeitosas ou acusações rancorosas e sem provas, sem importar se está ou não denegrindo a imagem de alguém.

Às vezes são xingamentos tão cretinos que ao invés de atingir o alvo terminam por revelar o canalha que está por trás da cafajestada. 

Às vezes são opiniões que repudiamos totalmente, porém cada um tem todo o direito de pensar e de se expressar de acordo com os seus valores e sua consciência.

Para alguns, a democracia é um bem a se preservar a qualquer custo. Outros, entretanto, não lhe dão o devido valor, como é o caso dos tais que propõem a volta da ditadura. Entre estes, muitos com largas fitas da hierarquia religiosa nos ombros. Prefiro não comentar como os vejo.  

A democracia é um bem tão precioso que até permite que pessoas a combatam e proponham sua eliminação. Por mais absurdo que possa parecer, isso é uma verdade. Só uma palavra os define: cretinos.

É muito fácil combater e criticar a democracia numa democracia. Difícil é combater e criticar a ditadura numa ditadura.

O que podemos fazer em relação a esse tipo de opinião? Tentar argumentar contrariamente. Da minha parte não há nada mais a fazer, pois não tenho vocação para lavador de cérebros. Não me compete convencer ninguém de coisa alguma. Gosto apenas de lançar temas e opiniões para reflexão.

É bom ouvir ou ler opiniões de pessoas sensatas e equilibradas, cujo somatório de valores é positivo. O contrário disso a gente só tem a lamentar.

Entretanto, há afirmações e perguntas tão idiotas, verdadeiras canalhices mesmo, que não vale a pena a gente perder tempo tentando respondê-las. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Dois filmes, duas mensagens

Por Saulo Alves de Oliveira

Recentemente assisti aos filmes “Corações de Ferro” e “A Teoria de Tudo”.

O primeiro, um filme de guerra cuja ação se passa no final da 2ª Guerra Mundial, mostra um grupo de soldados norte-americanos que lutam dentro do próprio território da Alemanha. Uma coluna de 5 ou 6 tanques, sob o comando de um sargento, interpretado pelo ator Brad Pitt, é enviada para garantir posições no front inimigo. Ao final, resta apenas um tanque, cuja resistência e poder de fogo são muito inferiores à capacidade dos tanques alemães.

Em “Corações de Ferro” o sargento, já embrutecido pelas guerras, tenta obrigar um novato que se agregou ao grupo a atirar na cabeça de um soldado alemão desarmado e já rendido. O jovem se recusa, entretanto, depois de forte discussão, e apesar dos apelos do soldado alemão, o sargento o executa friamente.

Talvez um aspecto positivo a realçar, em plena loucura da guerra, seja a amizade e a lealdade dos soldados a seu comandante, sobretudo no desfecho do filme.      

O filme mostra a que ponto chega a imbecilidade e a insensatez do ser humano: destruir o seu próprio semelhante e cometer atos que envergonham a nossa raça.

Assistindo a “Corações de Ferro” e tomando conhecimento das guerras e conflitos que acontecem atualmente eu chego a desanimar em relação ao futuro da humanidade. A gente fica pensando que os crápulas que governam grande parte do mundo vão nos levar ao extermínio.

E o pior: o fundamentalismo religioso e a intolerância religiosa têm uma grande parcela de responsabilidade no que diz respeito aos conflitos que acontecem hoje em todo o globo.

O segundo filme é um drama que conta a história de superação do físico inglês Stephen Hawking e de sua jovem esposa Jane Wilde. Hawking, ainda muito jovem, por volta dos 21 anos, foi acometido de uma doença degenerativa sem cura, que o deixou totalmente paralisado. Apesar da doença, seu cérebro funciona perfeitamente e ele é hoje, aos 73 anos, uma das mentes mais brilhantes de todo o mundo.

O filme mostra a força de vontade de um homem que, com a fundamental ajuda de sua esposa nos primeiros 26 anos da doença, e mesmo dependendo atualmente de outras pessoas para executar as mais simples atividades, se tornou um dos maiores cientistas da atualidade.

Assistindo a “A Teoria de Tudo” eu recobro um pouco o ânimo em relação ao futuro da humanidade. Por homens como Hawking a gente fica pensando que talvez os crápulas que governam grande parte do mundo não consigam nos levar ao extermínio.

Um detalhe: Stephen Hawking não crê em Deus.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ao caro Pastor

Por Saulo Alves de Oliveira

Agradeço-lhe por sua mensagem e por sua preocupação em relação a este ser humano comum. Todavia, não tenho nada a dizer sobre suas observações, exceto quanto ao seu último parágrafo.

Não sofro angústias ou crise existencial. Na realidade, até sofro, mas nada que não seja comum a qualquer ser humano em sua luta diária pela sobrevivência. Certamente até você passa por momentos de angústia. Nada mais natural, não é mesmo?

Talvez eu até viva uma crise existencial, que se prolonga por, quem sabe, 25 anos. Confesso-lhe que não sei se sairei dela um dia. Mas, se vivo uma crise existencial, posso afirmar que tal fato me tem feito ver coisas que antes estavam encobertas pela névoa de uma fé radical e, de certo modo, fundamentalista.      

Quanto a frustrações e decepções, concordo com você, porém sob outros aspectos.

Já me decepcionei com Deus sim, frustrei-me com a Bíblia e com a fé. Senti-me desamparado por Ele diversas vezes.

Muitas coisas aconteceram na minha vida, que mudaram a minha forma de me relacionar com Deus, minha visão da Bíblia e da fé, a tal ponto que hoje não tenho receio de declarar, como o faço agora. Na realidade, hoje não sou a mesma pessoa de há 25 anos. Não estou apenas mais velho. Realmente, não sou o mesmo.

Sempre ouço pessoas dizerem que Jesus nunca as decepcionou. Não sei o que é que poderia acontecer na vida de alguém para se dizer decepcionado com Jesus. Há pessoas que passam 10, 20, 30 anos ou mais orando por alguma coisa muito especial para si e nada acontece. Depois, morrem sem ver o seu sonho realizado. A desculpa e o autoconsolo é que “certamente não era a vontade Deus”. Realmente, assim, por mais que alguém sofra, Jesus nunca decepciona ninguém.

Felizmente – ou infelizmente, não sei ao certo –, comigo as coisas não são assim. Eu não dispenso evidências convincentes.

Jamais entendi e sempre questionei, pelo menos na minha mente, certas coisas, no entanto para o meu “bem” deixava pra lá. É como dizia minha querida mãe: “Meu filho, quando se come peixe, a gente deixa as espinhas de lado”. E quantas espinhas eu deixei de engolir!

Porém as coisas se complicaram muito com a morte da minha sogra aos 51 anos de idade em 1989.

Talvez mais do que seus filhos, eu não acreditava que ela morreria daquela doença. Por quê, se todas as pessoas morrem?, você pode perguntar. Porque eu tinha fé e a Bíblia diz “...pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível.” Portanto, enquanto havia vida, eu acreditava que ela seria curada. E eu orei muito por isso.

Na verdade, eu fui reprovado no primeiro grande teste da minha vida. E isso teve uma repercussão extremamente importante ao longo dos anos seguintes.

Eu pedi, pedi, e obtive o silêncio como resposta. E essa história de dizer que o silêncio de Deus também é resposta não me convence.

(Minha sogra morreu de câncer; meu sogro morreu de câncer; minha mãe morreu de câncer; meu pai morreu de câncer; quatro referenciais na minha vida, todos crentes, sinceros, honestos e de vida “santa”. Tais fatos, na minha ótica, são sintomas de algo que as pessoas não querem ver porque para elas é reconfortante não ver.)

E essa não foi a única vez. Depois vieram outras experiências. Posso relatar mais uma. Eu passei por momentos muito difíceis depois que fui trabalhar em Recife. Não sei se você sabe, mas passei onze anos trabalhando no BB em Recife a partir de 1996. E nos primeiros dois anos vivi uma experiência emocional muito desagradável, ou seja, uma quase depressão, e me vi absolutamente só.

Pedi tanto a Deus que me ajudasse a atravessar aquela etapa tão difícil, e nada de ajuda. Não precisava eliminar o meu sofrimento, pois o sofrimento é inerente à vida humana. Bastaria que me dissesse: “Eu estou ao teu lado e te ajudo na caminhada”. No momento em que mais precisei, Ele me abandonou. Silêncio total. A decepção foi literal.

Então, não tinha outra saída, pois já haviam transcorrido vários meses e, para superar a minha quase depressão, eu tive de recorrer a alguns profissionais que me ajudaram realmente a sair daquela situação.

A partir daí passei a questionar ainda mais muitas coisas referentes à vida, à fé, a Deus e à Bíblia. E não encontrei respostas; e quando as encontrei não me satisfizeram; e quando me satisfizeram tinham outra dimensão.

Eu digo sempre que, para algumas perguntas, já encontrei respostas; outras, ainda estão se processando na minha mente; e há aquelas para as quais, provavelmente, eu jamais encontre respostas. Mas, no estágio da vida em que estou, jamais desistirei de procurar respostas. E isso tem sido de um valor extraordinário para o meu desenvolvimento intelectual, moral e espiritual.    

Não pense que eu tenho raiva de Deus por tudo isso. Eu apenas passei a vê-lo de uma maneira totalmente diferente.

Depois, vieram outras descobertas, outros conhecimentos que me deram uma nova visão da vida e do ser humano. Eu posso lhe dizer que é uma visão espetacular desse pequeníssimo planeta chamado Terra, onde toda a vida que conhecemos habita, na vastidão deste imenso e deslumbrante Universo.

Só lamento que, talvez por deficiência intelectual inerente a este beócio ser humano, essa nova visão tenha vindo com tanto atraso.

Na realidade, sou apenas alguém envolto em pensamentos e reflexões acerca da vida.

Tenho consciência de que estou só um pouquinho acima da mediocridade, porém, no máximo, no máximo mesmo, talvez só alcance a média da inteligência das pessoas comuns.

É provável que, se tenho alguma vantagem em relação à mediocridade (?), se deva tão somente a minha necessidade de saber a verdade e não simplesmente acreditar, de não ter receio de perguntar, questionar, ainda que o Criador, e não me conformar com certas respostas, apesar de não ter ou não saber a resposta correta ou definitiva para muitas questões.

Ah, meu caro Pastor, a Bíblia tem histórias inaceitáveis do ponto de vista de um Deus onipotente, onisciente e cuja benignidade dura para sempre. E as pessoas têm medo de questionar. Por quê? Por medo de Deus?

Apenas um exemplo, dentre muitos que poderiam ser citados: nunca me conformei com as respostas para as matanças de animais no VT. Na consagração do templo, Salomão sacrificou, em apenas sete dias, 22.000 bois e 120.000 ovelhas. Mesmo que tenham sido quatorze dias, “...pois haviam celebrado por sete dias a dedicação do altar, e por sete dias a festa”, ainda assim atingiram a terrível marca de mais de dez mil animais por dia ou sete animais mortos a cada minuto! Antes eu lia tal passagem e não tinha dificuldade em digeri-la. Hoje, não. Não vejo justificativa alguma razoável para isso. Não vejo justificativa alguma para essa sede insaciável de sangue. Ao se considerar o Ser transcendental que é Deus, não vejo sentido algum em sua satisfação com o “cheiro suave” de animais queimados.

Sob o ponto de vista do Deus onipotente, há algo mais grave ainda e de justificativas que nada justificam: a matança ou extermínio de seres humanos – homens, mulheres, velhos, crianças inocentes – e animais, também inocentes, ordenadas por Jeová através de ou executadas por homens como Moisés – o manso – e outros. Ele, o Senhor, poderia ter sido seletivo com os maus.

São moralmente inaceitáveis os crimes e assassinatos cometidos por Israel sob as ordens de homens como o já citado Moisés, a mandado do próprio Deus (sic). São muitos os exemplos, mas cito apenas um (você conhece a Bíblia muito melhor do que eu, você foi meu professor): o massacre dos midianitas – Nm. 31.1-24.

Tais histórias me afligem e me são profundamente desconfortáveis. A você, não?

Além disso, acredito que jamais entenderei o porquê de tantas divergências de interpretação da Bíblia, A Palavra de Deus, o Manual de Deus para a humanidade. Só para citar um único exemplo: doutrina da predestinação versus livre arbítrio. Na realidade, para mim isso é um forte indício de algo muito maior e muito perturbador, mais do que a simples contradição entre as duas doutrinas. Porém acho que sobre isso devo ficar por aqui mesmo.  

Conheço muito bem, e de longas datas, sua capacidade intelectual, seu profundo conhecimento teológico e das ciências e sua perspicácia argumentativa. O que deve ter-se aprimorado ainda mais com o passar dos anos.

Apesar de nunca ter privado da sua amizade, sempre o respeitei e o admirei pela sua sinceridade, caráter, honestidade e ética. Hoje, ainda o respeito.

Quanto a suas posições políticas, conhecidas mais claramente agora, lamentavelmente não posso dizer a mesma coisa. Mas, felizmente vivemos em uma democracia e somos livres para pensar e decidir de que lado devemos estar. É um direito seu e que jamais pode lhe ser negado. Afinal, temos o livre arbítrio, não é mesmo?  

Quanto a mim, procuro viver a vida sabendo que estar vivo e ter a consciência do ser é a coisa mais espetacular que poderia me acontecer, pois sou fruto de uma grande corrida que se travou há quase sessenta anos no interior de Maria Carlos e, dentre centenas de milhões de potenciais seres humanos, literalmente eu fui o vencedor. Todos os demais foram simplesmente eliminados. Portanto, eu poderia não estar aqui, e jamais tomar conhecimento das belezas e feiuras da Natureza. Bastaria apenas que outro espermatozoide tivesse sido mais rápido do que este “atrevido”.

Não pense que, por tudo que falei, hoje sou uma pessoa amarga e revoltada. Ao contrário, sou muito feliz porque hoje tenho uma consciência muito maior da finitude da vida e da sua beleza e do que significa estar vivo. 

Para concluir, devo dizer que não sei exatamente como enfrentarei aqueles momentos cruciais no limite da vida para a eternidade. Espero ter a mesma tranquilidade e resignação do meu velho e querido Pai que, se não demonstrou alegria porque ia encontrar-se com o Eterno, manteve, até o fim, a serenidade e firmeza de quem sabe para onde vai.

Desejo tão somente que você, sua família e sua querida esposa – que, segundo notícias que ouvi, passa por problemas de saúde não tão simples – estejam em Paz.

Agradeço pelas orações e pelo apreço.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

No passado, no presente e no além

Por Saulo Alves de Oliveira

Um antigo vizinho meu que tinha um retardo mental gostava muito de usar a expressão “eu fico incrível” quando alguma coisa o incomodava, algo que ele julgava fora do padrão da normalidade ou para o qual ele não encontrava justificativa convincente.  

Muito próximo da minha casa há um terreno desocupado. Meu vizinho sempre questionava porque ali não se construía alguma coisa. Lembro que ele sempre citava uma farmácia ou um supermercado. Isso o incomodava, então ele ficava “incrível” com tal situação.

Ainda hoje, transcorridos vários anos depois que o meu vizinho se mudou, o terreno continua desocupado, servindo apenas para juntar lixo, restos de construção, roedores e insetos. Agora quem fica “incrível” sou eu.     

Vou tomar emprestada a expressão do meu antigo vizinho.

Eu fico “incrível” como em questão ou matéria de fé as pessoas tentam justificar o injustificável.

E o pior: não são pessoas loucas ou ignorantes, são pessoas normais, sãs e inteligentes, algumas com elevada formação acadêmica, que convivem conosco diariamente e estão convencidas de que estão certas.

As suas crenças as fazem aceitar com toda naturalidade verdadeiras barbáries cometidas no passado e no presente e que também se darão no além, não sei se distante ou perto, contra o ser humano.

E o que mais me incomoda: um dia eu também pensei assim!