terça-feira, 17 de março de 2015

Cada pessoa é um somatório de valores

Por Saulo Alves de Oliveira

Bom seria se o resultado fosse sempre positivo, mas nem sempre isso acontece.

Será que eu estou acima ou abaixo do zero? Pergunta intrigante para mim.

Cada ser humano é o resultado de um somatório de valores acumulados ao longo da sua vida. Esse resultado se expressa nas opiniões ou nas atitudes, que nem sempre coincidem com as nossas. E coincidir não é indispensável. Indispensável é o respeito.

Às vezes as opiniões são generalizações desrespeitosas ou acusações rancorosas e sem provas, sem importar se está ou não denegrindo a imagem de alguém.

Às vezes são xingamentos tão cretinos que ao invés de atingir o alvo terminam por revelar o canalha que está por trás da cafajestada. 

Às vezes são opiniões que repudiamos totalmente, porém cada um tem todo o direito de pensar e de se expressar de acordo com os seus valores e sua consciência.

Para alguns, a democracia é um bem a se preservar a qualquer custo. Outros, entretanto, não lhe dão o devido valor, como é o caso dos tais que propõem a volta da ditadura. Entre estes, muitos com largas fitas da hierarquia religiosa nos ombros. Prefiro não comentar como os vejo.  

A democracia é um bem tão precioso que até permite que pessoas a combatam e proponham sua eliminação. Por mais absurdo que possa parecer, isso é uma verdade. Só uma palavra os define: cretinos.

É muito fácil combater e criticar a democracia numa democracia. Difícil é combater e criticar a ditadura numa ditadura.

O que podemos fazer em relação a esse tipo de opinião? Tentar argumentar contrariamente. Da minha parte não há nada mais a fazer, pois não tenho vocação para lavador de cérebros. Não me compete convencer ninguém de coisa alguma. Gosto apenas de lançar temas e opiniões para reflexão.

É bom ouvir ou ler opiniões de pessoas sensatas e equilibradas, cujo somatório de valores é positivo. O contrário disso a gente só tem a lamentar.

Entretanto, há afirmações e perguntas tão idiotas, verdadeiras canalhices mesmo, que não vale a pena a gente perder tempo tentando respondê-las. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Dois filmes, duas mensagens

Por Saulo Alves de Oliveira

Recentemente assisti aos filmes “Corações de Ferro” e “A Teoria de Tudo”.

O primeiro, um filme de guerra cuja ação se passa no final da 2ª Guerra Mundial, mostra um grupo de soldados norte-americanos que lutam dentro do próprio território da Alemanha. Uma coluna de 5 ou 6 tanques, sob o comando de um sargento, interpretado pelo ator Brad Pitt, é enviada para garantir posições no front inimigo. Ao final, resta apenas um tanque, cuja resistência e poder de fogo são muito inferiores à capacidade dos tanques alemães.

Em “Corações de Ferro” o sargento, já embrutecido pelas guerras, tenta obrigar um novato que se agregou ao grupo a atirar na cabeça de um soldado alemão desarmado e já rendido. O jovem se recusa, entretanto, depois de forte discussão, e apesar dos apelos do soldado alemão, o sargento o executa friamente.

Talvez um aspecto positivo a realçar, em plena loucura da guerra, seja a amizade e a lealdade dos soldados a seu comandante, sobretudo no desfecho do filme.      

O filme mostra a que ponto chega a imbecilidade e a insensatez do ser humano: destruir o seu próprio semelhante e cometer atos que envergonham a nossa raça.

Assistindo a “Corações de Ferro” e tomando conhecimento das guerras e conflitos que acontecem atualmente eu chego a desanimar em relação ao futuro da humanidade. A gente fica pensando que os crápulas que governam grande parte do mundo vão nos levar ao extermínio.

E o pior: o fundamentalismo religioso e a intolerância religiosa têm uma grande parcela de responsabilidade no que diz respeito aos conflitos que acontecem hoje em todo o globo.

O segundo filme é um drama que conta a história de superação do físico inglês Stephen Hawking e de sua jovem esposa Jane Wilde. Hawking, ainda muito jovem, por volta dos 21 anos, foi acometido de uma doença degenerativa sem cura, que o deixou totalmente paralisado. Apesar da doença, seu cérebro funciona perfeitamente e ele é hoje, aos 73 anos, uma das mentes mais brilhantes de todo o mundo.

O filme mostra a força de vontade de um homem que, com a fundamental ajuda de sua esposa nos primeiros 26 anos da doença, e mesmo dependendo atualmente de outras pessoas para executar as mais simples atividades, se tornou um dos maiores cientistas da atualidade.

Assistindo a “A Teoria de Tudo” eu recobro um pouco o ânimo em relação ao futuro da humanidade. Por homens como Hawking a gente fica pensando que talvez os crápulas que governam grande parte do mundo não consigam nos levar ao extermínio.

Um detalhe: Stephen Hawking não crê em Deus.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ao caro Pastor

Por Saulo Alves de Oliveira

Agradeço-lhe por sua mensagem e por sua preocupação em relação a este ser humano comum. Todavia, não tenho nada a dizer sobre suas observações, exceto quanto ao seu último parágrafo.

Não sofro angústias ou crise existencial. Na realidade, até sofro, mas nada que não seja comum a qualquer ser humano em sua luta diária pela sobrevivência. Certamente até você passa por momentos de angústia. Nada mais natural, não é mesmo?

Talvez eu até viva uma crise existencial, que se prolonga por, quem sabe, 25 anos. Confesso-lhe que não sei se sairei dela um dia. Mas, se vivo uma crise existencial, posso afirmar que tal fato me tem feito ver coisas que antes estavam encobertas pela névoa de uma fé radical e, de certo modo, fundamentalista.      

Quanto a frustrações e decepções, concordo com você, porém sob outros aspectos.

Já me decepcionei com Deus sim, frustrei-me com a Bíblia e com a fé. Senti-me desamparado por Ele diversas vezes.

Muitas coisas aconteceram na minha vida, que mudaram a minha forma de me relacionar com Deus, minha visão da Bíblia e da fé, a tal ponto que hoje não tenho receio de declarar, como o faço agora. Na realidade, hoje não sou a mesma pessoa de há 25 anos. Não estou apenas mais velho. Realmente, não sou o mesmo.

Sempre ouço pessoas dizerem que Jesus nunca as decepcionou. Não sei o que é que poderia acontecer na vida de alguém para se dizer decepcionado com Jesus. Há pessoas que passam 10, 20, 30 anos ou mais orando por alguma coisa muito especial para si e nada acontece. Depois, morrem sem ver o seu sonho realizado. A desculpa e o autoconsolo é que “certamente não era a vontade Deus”. Realmente, assim, por mais que alguém sofra, Jesus nunca decepciona ninguém.

Felizmente – ou infelizmente, não sei ao certo –, comigo as coisas não são assim. Eu não dispenso evidências convincentes.

Jamais entendi e sempre questionei, pelo menos na minha mente, certas coisas, no entanto para o meu “bem” deixava pra lá. É como dizia minha querida mãe: “Meu filho, quando se come peixe, a gente deixa as espinhas de lado”. E quantas espinhas eu deixei de engolir!

Porém as coisas se complicaram muito com a morte da minha sogra aos 51 anos de idade em 1989.

Talvez mais do que seus filhos, eu não acreditava que ela morreria daquela doença. Por quê, se todas as pessoas morrem?, você pode perguntar. Porque eu tinha fé e a Bíblia diz “...pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível.” Portanto, enquanto havia vida, eu acreditava que ela seria curada. E eu orei muito por isso.

Na verdade, eu fui reprovado no primeiro grande teste da minha vida. E isso teve uma repercussão extremamente importante ao longo dos anos seguintes.

Eu pedi, pedi, e obtive o silêncio como resposta. E essa história de dizer que o silêncio de Deus também é resposta não me convence.

(Minha sogra morreu de câncer; meu sogro morreu de câncer; minha mãe morreu de câncer; meu pai morreu de câncer; quatro referenciais na minha vida, todos crentes, sinceros, honestos e de vida “santa”. Tais fatos, na minha ótica, são sintomas de algo que as pessoas não querem ver porque para elas é reconfortante não ver.)

E essa não foi a única vez. Depois vieram outras experiências. Posso relatar mais uma. Eu passei por momentos muito difíceis depois que fui trabalhar em Recife. Não sei se você sabe, mas passei onze anos trabalhando no BB em Recife a partir de 1996. E nos primeiros dois anos vivi uma experiência emocional muito desagradável, ou seja, uma quase depressão, e me vi absolutamente só.

Pedi tanto a Deus que me ajudasse a atravessar aquela etapa tão difícil, e nada de ajuda. Não precisava eliminar o meu sofrimento, pois o sofrimento é inerente à vida humana. Bastaria que me dissesse: “Eu estou ao teu lado e te ajudo na caminhada”. No momento em que mais precisei, Ele me abandonou. Silêncio total. A decepção foi literal.

Então, não tinha outra saída, pois já haviam transcorrido vários meses e, para superar a minha quase depressão, eu tive de recorrer a alguns profissionais que me ajudaram realmente a sair daquela situação.

A partir daí passei a questionar ainda mais muitas coisas referentes à vida, à fé, a Deus e à Bíblia. E não encontrei respostas; e quando as encontrei não me satisfizeram; e quando me satisfizeram tinham outra dimensão.

Eu digo sempre que, para algumas perguntas, já encontrei respostas; outras, ainda estão se processando na minha mente; e há aquelas para as quais, provavelmente, eu jamais encontre respostas. Mas, no estágio da vida em que estou, jamais desistirei de procurar respostas. E isso tem sido de um valor extraordinário para o meu desenvolvimento intelectual, moral e espiritual.    

Não pense que eu tenho raiva de Deus por tudo isso. Eu apenas passei a vê-lo de uma maneira totalmente diferente.

Depois, vieram outras descobertas, outros conhecimentos que me deram uma nova visão da vida e do ser humano. Eu posso lhe dizer que é uma visão espetacular desse pequeníssimo planeta chamado Terra, onde toda a vida que conhecemos habita, na vastidão deste imenso e deslumbrante Universo.

Só lamento que, talvez por deficiência intelectual inerente a este beócio ser humano, essa nova visão tenha vindo com tanto atraso.

Na realidade, sou apenas alguém envolto em pensamentos e reflexões acerca da vida.

Tenho consciência de que estou só um pouquinho acima da mediocridade, porém, no máximo, no máximo mesmo, talvez só alcance a média da inteligência das pessoas comuns.

É provável que, se tenho alguma vantagem em relação à mediocridade (?), se deva tão somente a minha necessidade de saber a verdade e não simplesmente acreditar, de não ter receio de perguntar, questionar, ainda que o Criador, e não me conformar com certas respostas, apesar de não ter ou não saber a resposta correta ou definitiva para muitas questões.

Ah, meu caro Pastor, a Bíblia tem histórias inaceitáveis do ponto de vista de um Deus onipotente, onisciente e cuja benignidade dura para sempre. E as pessoas têm medo de questionar. Por quê? Por medo de Deus?

Apenas um exemplo, dentre muitos que poderiam ser citados: nunca me conformei com as respostas para as matanças de animais no VT. Na consagração do templo, Salomão sacrificou, em apenas sete dias, 22.000 bois e 120.000 ovelhas. Mesmo que tenham sido quatorze dias, “...pois haviam celebrado por sete dias a dedicação do altar, e por sete dias a festa”, ainda assim atingiram a terrível marca de mais de dez mil animais por dia ou sete animais mortos a cada minuto! Antes eu lia tal passagem e não tinha dificuldade em digeri-la. Hoje, não. Não vejo justificativa alguma razoável para isso. Não vejo justificativa alguma para essa sede insaciável de sangue. Ao se considerar o Ser transcendental que é Deus, não vejo sentido algum em sua satisfação com o “cheiro suave” de animais queimados.

Sob o ponto de vista do Deus onipotente, há algo mais grave ainda e de justificativas que nada justificam: a matança ou extermínio de seres humanos – homens, mulheres, velhos, crianças inocentes – e animais, também inocentes, ordenadas por Jeová através de ou executadas por homens como Moisés – o manso – e outros. Ele, o Senhor, poderia ter sido seletivo com os maus.

São moralmente inaceitáveis os crimes e assassinatos cometidos por Israel sob as ordens de homens como o já citado Moisés, a mandado do próprio Deus (sic). São muitos os exemplos, mas cito apenas um (você conhece a Bíblia muito melhor do que eu, você foi meu professor): o massacre dos midianitas – Nm. 31.1-24.

Tais histórias me afligem e me são profundamente desconfortáveis. A você, não?

Além disso, acredito que jamais entenderei o porquê de tantas divergências de interpretação da Bíblia, A Palavra de Deus, o Manual de Deus para a humanidade. Só para citar um único exemplo: doutrina da predestinação versus livre arbítrio. Na realidade, para mim isso é um forte indício de algo muito maior e muito perturbador, mais do que a simples contradição entre as duas doutrinas. Porém acho que sobre isso devo ficar por aqui mesmo.  

Conheço muito bem, e de longas datas, sua capacidade intelectual, seu profundo conhecimento teológico e das ciências e sua perspicácia argumentativa. O que deve ter-se aprimorado ainda mais com o passar dos anos.

Apesar de nunca ter privado da sua amizade, sempre o respeitei e o admirei pela sua sinceridade, caráter, honestidade e ética. Hoje, ainda o respeito.

Quanto a suas posições políticas, conhecidas mais claramente agora, lamentavelmente não posso dizer a mesma coisa. Mas, felizmente vivemos em uma democracia e somos livres para pensar e decidir de que lado devemos estar. É um direito seu e que jamais pode lhe ser negado. Afinal, temos o livre arbítrio, não é mesmo?  

Quanto a mim, procuro viver a vida sabendo que estar vivo e ter a consciência do ser é a coisa mais espetacular que poderia me acontecer, pois sou fruto de uma grande corrida que se travou há quase sessenta anos no interior de Maria Carlos e, dentre centenas de milhões de potenciais seres humanos, literalmente eu fui o vencedor. Todos os demais foram simplesmente eliminados. Portanto, eu poderia não estar aqui, e jamais tomar conhecimento das belezas e feiuras da Natureza. Bastaria apenas que outro espermatozoide tivesse sido mais rápido do que este “atrevido”.

Não pense que, por tudo que falei, hoje sou uma pessoa amarga e revoltada. Ao contrário, sou muito feliz porque hoje tenho uma consciência muito maior da finitude da vida e da sua beleza e do que significa estar vivo. 

Para concluir, devo dizer que não sei exatamente como enfrentarei aqueles momentos cruciais no limite da vida para a eternidade. Espero ter a mesma tranquilidade e resignação do meu velho e querido Pai que, se não demonstrou alegria porque ia encontrar-se com o Eterno, manteve, até o fim, a serenidade e firmeza de quem sabe para onde vai.

Desejo tão somente que você, sua família e sua querida esposa – que, segundo notícias que ouvi, passa por problemas de saúde não tão simples – estejam em Paz.

Agradeço pelas orações e pelo apreço.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

No passado, no presente e no além

Por Saulo Alves de Oliveira

Um antigo vizinho meu que tinha um retardo mental gostava muito de usar a expressão “eu fico incrível” quando alguma coisa o incomodava, algo que ele julgava fora do padrão da normalidade ou para o qual ele não encontrava justificativa convincente.  

Muito próximo da minha casa há um terreno desocupado. Meu vizinho sempre questionava porque ali não se construía alguma coisa. Lembro que ele sempre citava uma farmácia ou um supermercado. Isso o incomodava, então ele ficava “incrível” com tal situação.

Ainda hoje, transcorridos vários anos depois que o meu vizinho se mudou, o terreno continua desocupado, servindo apenas para juntar lixo, restos de construção, roedores e insetos. Agora quem fica “incrível” sou eu.     

Vou tomar emprestada a expressão do meu antigo vizinho.

Eu fico “incrível” como em questão ou matéria de fé as pessoas tentam justificar o injustificável.

E o pior: não são pessoas loucas ou ignorantes, são pessoas normais, sãs e inteligentes, algumas com elevada formação acadêmica, que convivem conosco diariamente e estão convencidas de que estão certas.

As suas crenças as fazem aceitar com toda naturalidade verdadeiras barbáries cometidas no passado e no presente e que também se darão no além, não sei se distante ou perto, contra o ser humano.

E o que mais me incomoda: um dia eu também pensei assim!   

sábado, 31 de janeiro de 2015

“Os juízos de Deus só caem sobre os rebeldes...”

 Por Saulo Alves de Oliveira

“... Mas às vezes nos assusta e nos abala”, disse minha amiga.

Não só nos assusta e nos abala, minha amiga. Também nos faz refletir e nos transforma. E às vezes interfere em nossa relação com o próprio Deus.

Os juízos de Deus não caem ou caíram apenas sobre os rebeldes. Muitos inocentes pagaram por crimes ou pecados que não cometeram. Não há como fechar os olhos a essa realidade. Apenas os que sofrem da síndrome do avestruz, que enterra a cabeça, como diz a lenda, não percebem essa verdade tão dura, porquanto está claramente registrada nas páginas da Bíblia em todo o VT. Há inúmeros casos na Bíblia que são moralmente inaceitáveis. E a grande maioria dos crentes hoje é incapaz de sentir a dor daqueles povos antigos castigados por Deus de forma tão cruel. Ao contrário, se regozija com a condenação dos “maus”. Mas, será que todos os “rebeldes” eram maus?

Ao analisar uma determinada situação eu tento sempre me colocar no lugar do outro. Assim eu consigo avaliar melhor como me sentiria se estivesse do outro lado. Tente essa experiência.

Ao fazer isso, procure se livrar, pelo menos por alguns instantes, de toda a carga de doutrinação que você e eu recebemos ao longo das nossas vidas. Por experiência própria sei que não é fácil, porém, com muito esforço, tenho conseguido. Esforce-se por se sentir apenas um observador independente, livre da doutrinação a favor ou contra.

Há inúmeros casos na Bíblia que poderiam ser apresentados, mas, para ser conciso, vou citar apenas um. O caso da saída do povo hebreu do Egito. Coloque-se no lugar de uma mulher egípcia ou de seu filho primogênito, ou mesmo, por que não dizer, de um homem egípcio.

Quantos inocentes, seres humanos e animais, foram mortos pelas famosas “pragas do Egito”?  E o pior: o próprio Deus endureceu o coração do Faraó para que ele não cedesse e deixasse o povo israelita sair daquelas terras. Deus endurece por várias vezes o coração do Faraó para em seguida castigar duramente o povo egípcio e assim matar certamente milhares de inocentes, seres humanos e animais.

Confesso: minha percepção, posto que sou apenas um reles mortal, não alcança a justeza de tais atos.

E a história culmina com a morte de todos os primogênitos – inocentes, repito –, resultado do endurecimento do coração do Faraó provocado pelo próprio Deus (sic).

Você consegue se colocar no lugar de uma mãe egípcia? Ou de uma criança egípcia primogênita, que pagou por algo que não tinha nada a ver?

Por que Deus não foi seletivo e castigou apenas os maus? Acho que jamais entenderei seu decreto.

Eu imagino quantos jovens e crianças foram dormir felizes e alegres juntamente com seus pais naquela fatídica noite. E, na madrugada do dia seguinte, estavam todos mortos.

E não foram mortos apenas seres humanos. Os primogênitos dos animais também foram eliminados. Por quê?

Eu fico a pensar no que os filhos dos egípcios poderiam perguntar a Deus se pudessem falar depois de mortos. São apenas conjecturas que não posso evitar.

“Jeová, por que Tu nos mataste ainda tão jovens, com tantos planos a realizar? Que crime cometemos?”

E as crianças: “Nós nem sabíamos quem era Faraó” ou “Nem sequer sabíamos o que significava povo hebreu” e “Tu, Jeová, ceifaste as nossas vidas ainda na mais tenra idade, quando muitos de nós nem ao menos tínhamos dado os primeiros passos ou balbuciado as primeiras palavras”.

Não há justificativa moral alguma para essas mortes. Por isso os crentes apelam, como último recurso, e para se sentirem bem com suas consciências ou para não sofrerem o “castigo” do Todo-poderoso, para a soberania de Deus, isto é, Deus mata quem Ele quiser, quando quiser e como quiser, não importando o grau de sofrimento e injustiça contido nessa ação.

Deus, pois, é soberano até para fazer um inocente pagar pelo pecado de outrem (sic).

E assim as pessoas aceitam com toda a naturalidade as terríveis histórias de genocídios, extermínios, assassinatos e crueldades cometidos contra seres inocentes no VT.

Felizmente, eu já ultrapassei essa etapa na minha vida há alguns anos e hoje não me conformo mais com essas justificativas.

Se eu tenho alguma explicação para tais fatos? Talvez. Mas aí fica só comigo e Deus.           

sábado, 24 de janeiro de 2015

Dilema

Por Saulo Alves de Oliveira

Um tem certeza de que a sua fé é a verdadeira Fé.

Um outro está convicto de que a verdadeira Fé é a sua.

Um terceiro também não tem dúvidas de que a sua é a verdadeira Fé.

Há, porém, um sério problema nessa história: as três crenças são totalmente divergentes e qualquer um dos três consegue provar, segundo suas convicções, que a sua fé é o Caminho que leva ao verdadeiro Deus.

Qualquer pessoa sensata chegará à conclusão de que, se cada um não respeitar a fé dos outros dois e julgar que lhe cabe ganhá-los ou convertê-los à sua fé a qualquer custo – o que, tratando-se do inaceitável extremismo religioso, poderá ter o significado de decretar a morte dos “infiéis” e a infame execução desse propósito –, estará aceso o estopim de um conflito que tornará impossível a vida em sociedade.

Portanto, qual a solução para esse dilema?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Por que tantos “caminhos¹” a partir da Bíblia?

Por Saulo Alves de Oliveira

Isso não incomoda você? É claro que a pergunta só vale para os cristãos.

Certa vez afirmei:

Se eu fosse Deus não teria “escrito” a Bíblia deixando margem para interpretações tão divergentes. Não teria permitido que os próprios homens definissem quais livros deveriam fazer parte da Minha Carta aos seres humanos. Eu mesmo, pessoalmente, teria feito a escolha.

Por que fiz essa afirmação? Porque a Bíblia não é um livro objetivo. Cada grupo religioso o interpreta a seu bel-prazer e segundo suas conveniências. E isso sempre me incomodou. Portanto se eu fosse Deus teria feito um livro objetivo, um verdadeiro “Manual”, para que todos o entendessem da mesma forma.  

Exemplo bem atual: a Igreja Universal inaugurou recentemente o que o Sr. Edir Macedo chama de “Templo de Salomão” e parece estar dando uma interpretação judaizante ao evangelho, com base na Bíblia, ao utilizar ritos e objetos do Velho Testamento. Não adianta alguém afirmar “a exegese dele está errada”, pois certamente ele julga estar certo e milhares o estão seguindo.

Há algum tempo, conversando com amigos sobre esse tema lhes argumentei com a ideia de comparar a Bíblia com um roteiro claro e objetivo para chegar a qualquer ponto da cidade. Tal ideia me veio à mente para tentar esclarecer melhor o meu pensamento e os meus questionamentos.

Sei que é um exemplo medíocre, fruto de uma mente com muitas carências intelectuais.

Imaginem que sou o mais inteligente dentre todos os seres humanos (o tosco argumento deste comentário contradiz essa ideia boba, não é mesmo?) e falo todos os idiomas (que falácia, hein? Eu mal escrevo em português e, apesar de algumas tentativas, nem sequer me expresso em inglês).

Imaginem que fiz um guia, ou “manual, para qualquer pessoa de qualquer nacionalidade chegar sem erro a qualquer ponto da nossa cidade, esteja onde estiver.

Por acaso estou caminhando na Av. Salgado Filho, em Natal, quando sou abordado por um turista de qualquer parte do mundo que não sabe como chegar a um determinado ponto da cidade. O turista me pergunta qual é o caminho que o fará chegar àquele lugar. Tenho guias ou “manuais” em todos os idiomas e lhe entrego um guia em sua própria língua com todas as orientações possíveis para chegar lá. Indico onde ele está naquele momento e mostro o roteiro para alcançar o ponto desejado.

Para você entender a minha ideia não é imprescindível que eu lhe apresente o “manual”. O que vale mesmo é a compreensão do princípio que estou tentando transmitir. 

E veja que se trata de uma mente que nem é tão brilhante assim. Com muito esforço, talvez atinge a média do ser humano comum. Não tenho a mente insondável e infinita de Deus, o Todo-poderoso, que tem todo o conhecimento que jamais será esgotado pela mente humana.

Se, com todas as informações fornecidas, turistas que procuram o mesmo ponto da cidade fossem parar ou em Ponta Negra ou nas Quintas ou na Ribeira ou na Praia do Meio, o que você diria?

Acredito que, se adaptarmos essa última pergunta à Bíblia, a resposta pode ser desconcertante ou desalentadora. Ou não?

É claro que, possivelmente, há uma explicação racional para isso, no entanto não cabe a este principiante na arte da escrita convencê-lo de coisa alguma. Cabe a você encontrá-la, se assim o desejar, obviamente.  

Todavia, se para você isso não tem a menor importância...

¹Por “caminhos” entenda-se: igrejas, denominações, doutrinas ou interpretações da Bíblia