terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Predador e presa

Por Saulo Alves de Oliveira

Quando eu vejo o ataque de um predador a uma presa – por exemplo, uma alcateia (um grupo de lobos) perseguindo um caribu (ou rena) –, eu sempre torço pela presa.

A questão dramática é: como predador e sua prole sobreviverão se todas as investidas do predador forem frustradas?

A cadeia alimentar, que é algo natural, é chocante e perturbadora para mentes mais sensíveis.

(Quando saboreamos um bife no almoço, muitos de nós não temos noção do que o “dono” daquele pedaço de carne passou para que nós o tivéssemos ali em nossa mesa.)

Na realidade, a culpa não é do predador que não tem consciência do mal que inflige à presa.

Predador e presa evoluíram assim.

Se há culpa ou, talvez seja um termo melhor, responsabilidade por essa selvageria certamente é de quem os fez - predador e presa - assim.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Um questionamento sem resposta?!

Por Saulo Alves de Oliveira

Existe um questionamento que me persegue há muito tempo e, lamentavelmente, não sei se um dia encontrarei a resposta.

Eu posso simplificá-lo na forma abaixo.

Por que muitas crianças, certamente a grande maioria em todo o mundo, nascem em extrema pobreza, crescem e vivem na miséria e morrem na miséria?

Por que algumas crianças, certamente uma pequeníssima parcela em todo o mundo, nascem em berço de ouro, crescem e vivem na extrema riqueza e morrem com todo o luxo e conforto que o dinheiro pode proporcionar?

E sempre que eu me questiono assim, uma outra pergunta vem logo em seguida: Quem ou o quê determina essa chocante dicotomia?

Detalhe: ninguém tem o direito de escolher se quer ou não vir ao mundo e em qual família gostaria de nascer.

domingo, 27 de outubro de 2019

Qual é a sua reação?

Por Saulo Alves de Oliveira

Imagine-se dirigindo o seu carro novo - ar condicionado, direção elétrica, outros recursos especiais e todo o conforto que o seu dinheiro pode comprar - numa manhã chuvosa e fria ou num final de tarde de um dia quente e sufocante.

Imagine que você está passando na frente de um ponto de ônibus lotado de trabalhadores.

Ao ver aquela cena, qual é a sua reação?

- Você agradece a Deus, dizendo: “Graças te dou, meu bondoso Pai, pelo carro que me deste - às vezes mais de um -, que proporciona a mim e a minha família todo o conforto, segurança e rapidez nos nossos deslocamentos. ”

- Você pensa: "Por acaso nós somos melhores do que eles e se o temos é porque merecemos. ”

- Ou você pergunta a Deus: “Por que eu e uma pequena parcela da sociedade somos agraciados com um patrimônio tão importante e útil para nossas vidas e as vidas dos nossos familiares, enquanto milhões de trabalhadores, a grande maioria do povo, têm de enfrentar tanto sofrimento, na sua luta diária pela sobrevivência, em ônibus ou trens superlotados e sufocantes? ”

terça-feira, 1 de outubro de 2019

E você, o que faria? Obedeceria a Deus ou não?

Por Saulo Alves de Oliveira

A minha vida de formação cristã evangélica sempre foi ligada, desde criança, à leitura ou estudo da Bíblia. Todavia, a partir de um certo momento, algumas histórias bíblicas tornaram-se bastante incômodas para a minha mente acostumada a ouvir “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre”, então eu passei a questioná-las. Dentre as histórias mais controversas encontra-se a do quase sacrifício de Isaque pelo próprio pai, o patriarca Abraão.

É muito difícil aceitar com naturalidade que o Deus transcendental, que criou todas as coisas, descesse a esse nível tão humano, mas humano dos tempos em que a barbárie era a regra, a ponto de pedir o sacrifício, isto é, o assassinato de um ser humano.

Se você tem alguma noção da grandeza do Universo, com seu número incomensurável de estrelas, planetas, galáxias e outros elementos extraordinários ou fenomenais que o compõem, como buracos negros, pulsares, estrelas de nêutrons, supernovas etc. talvez você chegue à mesma conclusão.

Para se ter uma ideia da grandeza do Universo, segundo os cientistas o diâmetro do Universo observável tem cerca de 93 bilhões de anos-luz. O ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, isto é, 9,5 trilhões de quilômetros. Isso quer dizer que se fosse possível você se deslocar pelo Universo observável à velocidade da luz você faria uma viagem que duraria cerca de 93 bilhões de anos. Multiplique 93.000.000.000 x 9.500.000.000.000 é você terá uma ideia da distância em quilômetros a ser percorrida em sua viagem, para nós terráqueos, impossível.     

Segundo o relato bíblico, Deus resolveu testar a fé de Abraão. E assim pediu que o velho patriarca assassinasse seu filho Isaque, oferecendo-o em sacrifício ao próprio Deus.

Como Abraão assassinaria seu filho a pedido do próprio Deus? Cortando-lhe a garganta com uma faca afiada e deixando-o sangrar até à morte? Talvez. Cravando-lhe um punhal em seu coração? Talvez. E depois queimando seu corpo inerte sobre uma fogueira? Certamente, pois a lenha lá estava. E foi levada com essa intenção. Na caminhada até o monte, sem saber que seria assassinado e depois queimado em holocausto, o inocente Isaque pergunta: “Meu pai, eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?”  

O objetivo era testar se Abraão realmente o temia e se sua fé era suficientemente grande para fazê-lo executar qualquer coisa em obediência a Deus, ainda que um ato tão bárbaro e chocante como o que lhe fora solicitado.

Por mais perturbador que possa parecer, Abraão aceitou, pacificamente, e sem nenhum questionamento, executar o próprio filho. Abraão foi até o final do experimento e só não concretizou seu intento porque foi interrompido no último instante. Não há nenhum absurdo em se afirmar que, moralmente, Abraão matou seu filho Isaque.

Vendo recentemente um documentário sobre a Bíblia que tratava, dentre outros assuntos, sobre aquele episódio, eu fiquei a meditar: “O que eu faria se estivesse no lugar de Abraão?”

Bom, eu cheguei à seguinte conclusão: se Deus me pedisse para sacrificar meu próprio filho – na realidade, qualquer outra pessoa –, eu tentaria argumentar até às últimas consequências contrariamente, como o próprio Abraão fez previamente no episódio da destruição de Sodoma e Gomorra. Todavia, se o Senhor insistisse em testar a minha fé dessa forma tão brutal, a minha resposta definitiva seria “não”, mesmo que isso implicasse qualquer prejuízo pessoal.

E você, o que faria? Obedeceria a Deus e assassinaria seu próprio filho?

sábado, 14 de setembro de 2019

Providência? Coincidência? Ou ciência?

Por Saulo Alves de Oliveira

Há exatos dezoito anos e três dias ocorreu o ataque ao World Trade Center, Nova Iorque, EUA. O episódio ficou conhecido como o “11 de Setembro”, pois se deu no dia 11 de Setembro de 2001.

Muitas coisas ainda não foram esclarecidas em relação àquela tragédia. Por ocasião do fatídico e lamentável acontecimento, quase 3.000 pessoas perderam suas vidas. Há quem afirme que foi um autoataque. Para mim não será nenhuma surpresa se um dia tal versão for comprovada.

Hoje eu tomei conhecimento que 248 funcionários de origem israelense não foram trabalhar naquele dia. Salvaram-se todos.

Providência? Coincidência? Ou ciência?

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Qual é o deus?

Por Saulo Alves de Oliveira

Recentemente eu li o seguinte comentário:

“A chance que Deus tem dado ao povo brasileiro. Um presidente temente ao Senhor.
Oportunidade ímpar.” (sic)

Quando li esse comentário eu estava sentado. Ainda bem.

Você pode ter várias razões para votar num elemento que representa e prega o mal, que tem um linguajar chulo, grosseiro em suas ações e palavras, falto de educação ou agressivo com mulheres, negros e homossexuais.

Evidentemente, eu não concordo, mas vivemos numa democracia, frágil, é verdade, porém, aos trancos e barrancos, e com boa vontade, ainda é uma democracia. Agora dizer que o atual ocupante da cadeira principal do Palácio do Planalto é uma pessoa temente a Deus, só porque o cara é simpático aos crentes ou porque diz coisas que agradam aos evangélicos... É uma das coisas mais disparatadas que eu já ouvi.

Eu nasci, fui criado e cresci no meio evangélico, todavia, em determinado momento, eu percebi que a irracionalidade religiosa – que caracteriza grupos fanáticos dentro de quaisquer instituições religiosas, algumas mais afetadas por essa distorção da fé, outras atingidas em proporção significativamente menor –, pode fazer a pessoa acreditar nas coisas mais absurdas possíveis. E essa sem dúvida é uma delas. Talvez isso explique muitos dos outros absurdos que eu tenho ouvido nos últimos tempos.

As histórias bíblicas estão repletas de homens tidos como exemplos de fé e de temor a Deus, entretanto, lamentavelmente, alguns desses homens, sobretudo no Velho Testamento, fizeram coisas absurdas que chocam quaisquer mentes minimamente sensatas.

Eu poderia citar diversos exemplos, porém acho que basta apenas um caso.

“Então, disse Samuel: Trazei-me aqui Agague, rei dos amalequitas. E Agague veio a ele animosamente; e disse Agague: Na verdade, já passou a amargura da morte. Disse, porém, Samuel: Assim como a tua espada desfilhou as mulheres, assim ficará desfilhada a tua mãe entre as mulheres. Então, Samuel DESPEDAÇOU Agague perante o Senhor, em Gilgal.”

Samuel foi um dos grandes profetas do V.T. e um dos mais importantes juízes de Israel. Foi ele quem fez a transição do governo dos juízes para a monarquia. É sem dúvida um dos mais reverenciados profetas do V.T. Entretanto, no episódio acima, que pode ser lido em 1 Sm 15. 1-35, ele não se preocupou em submeter Agague a um julgamento justo e, se fosse o caso, comprovado seu crime, condená-lo à morte através de um método mais “humano”, como, por exemplo, enforcamento, se é que se pode considerar mais humano o enforcamento de uma pessoa. Apesar de ser um espetáculo horrível e deprimente, parece que o condenado não sente dores. Há alguns anos eu passei por uma experiência bem desagradável, já relatada aqui neste blog, que me autoriza a fazer essa observação.

Ao invés de promover um julgamento justo, Samuel fez justiça com as próprias mãos, DESPEDAÇANDO o rei dos amalequitas, certamente com uma espada. Se você tem dúvidas quanto ao espetáculo chocante e terrivelmente assustador que ali se deu – a não ser que você não se choque com cenas aterradoras e não tenha o menor apreço pela vida humana –, procure no dicionário o significado da palavra “despedaçar”.

Haveria alguma justificativa moral para essa atitude de Samuel?

Portanto, sob esse ponto de vista, pode ser que o cidadão citado no início do texto seja realmente temente a deus. Só nos resta descobrir um detalhe: qual é o deus?

domingo, 21 de julho de 2019

Ainda tentando entender

Por Saulo Alves de Oliveira

Se os ricos e a classe média alta votaram no capitão e o apoiam, me parece, até certo ponto, natural.

Até certo ponto porque mesmo pessoas abastadas, mas que reconhecem a sua condição humana e têm alguma bondade em suas almas – será possível? –, têm alguma afinidade com as questões sociais e alguma preocupação com o sofrimento humano.

Aqueles que, todavia, têm os mesmos objetivos mesquinhos do capitão se identificam com a sua pregação de desprezo pelas causas populares. São os que moram em Miami ou sonham em se mudar para lá.

O que me incomoda e entristece é saber que muitos pobres votaram e ainda apoiam um indivíduo que não tem nada a ver com os pobres.

Quantas vezes se ouviu o capitão falar em acabar com a fome e com a pobreza? Nenhuma.

Quantas vezes se ouviu o tal senhor falar em melhorar as condições de vida do povo e aumentar os salários dos trabalhadores? Nenhuma.

Ao contrário disso, ele afirmou recentemente que não há fome no Brasil.

A imagem que me vem à mente é daquele condenado, injustamente, que está com a corda no pescoço e, quase sem fôlego, diz para o seu algoz: “Aperte um pouquinho mais pois eu ainda posso respirar e não perdi os sentidos”.

Quem sabe os sociólogos, psicólogos ou antropólogos, ou mesmo os psiquiatras, tenham uma boa explicação.

Quanto a este metido a escriba, como minha formação é totalmente diferente, fico aqui com as minhas reflexões tentando entender. 

Um dia muitos se perguntarão: "Como eu apoiei esse cidadão?”