domingo, 3 de agosto de 2014

Não defendo Israel incondicionalmente

Por Saulo Alves de Oliveira

A propósito dos últimos acontecimentos envolvendo os palestinos e Israel, esta é a minha opinião. É evidente que minha opinião só tem sentido em um contexto cristão, especialmente evangélico, pois os não cristãos não levam em consideração o que a Bíblia diz a respeito dos judeus.

Não amaldiçoo Israel. Apenas não o apoio de forma incondicional, aliás, ninguém, ninguém mesmo tem o meu incondicional e absoluto apoio, inclusive Israel. E isto independe do que a Bíblia diz a respeito.

Se alguém sugerir que estudando ou conhecendo mais a Bíblia eu vou concordar com a ideia de que se deve orar e desejar paz apenas para Israel, ou concordar incondicionalmente com Israel, ou ainda que vou passar a entender que tudo que os israelenses fazem é correto e justo, devo dizer que isso jamais acontecerá, qualquer que seja a interpretação da Bíblia que ratifique esse entendimento.

Observe, nem para todos os israelenses isso é unanimidade. Há algum tempo um jovem de 19 anos preferiu ser preso a ter que, servindo ao exército do seu país, assassinar palestinos. Leia aqui a entrevista de um israelense, reservista do exército, que, para não colaborar com os massacres de Gaza, resolveu fugir para a Holanda e assim se dispõe a anos de prisão.
 
Até Moisés, o grande legislador judeu, que viveu há milhares de anos, teve atitudes que questiono e julgo verdadeiras barbáries. Vou dar apenas um exemplo. Leia Nm. 31.1-24 e você verá uma das histórias mais terríveis que já li. Um massacre cruel e covarde cometido pelos israelitas sob o comando de Moisés.

Não há, não houve e jamais haverá como justificar o assassinato de seres humanos indefesos, desarmados e, em especial, inocentes. Ainda que alguém se julgue incumbido dessa tarefa por Deus. E foi exatamente isso o que Moisés ordenou.

Hoje, sob o ponto vista da moral, tais procedimentos são injustificáveis. Hoje, se vivo fosse, certamente Moisés seria julgado por crimes contra a humanidade.

Veja o que disse o Sr. William Lane Craig, um dos grandes defensores da fé cristã da atualidade, ao justificar o extermínio dos cananitas: “Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados israelenses fizeram a si mesmos. Você pode imaginar que seria como ter que invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal nestes soldados israelenses são perturbadores.”

Irônica é a opinião do Sr. Craig. Que vergonhosa, cínica e repugnante inversão de valores! Os agressores assassinos é que são as vítimas desse empreendimento que envergonha e empobrece a história da humanidade.   
 
Será que os israelitas de hoje ainda vivem no tempo do “olho por olho, dente por dente”? Me parece que sim. Talvez se inspirem em Moisés, que trucidou – ou mandou trucidar – cruel e covardemente milhares de seres humanos.

Há ainda outro aspecto a considerar. A Bíblia pode ser usada para resolver conflitos entre cristãos. Ainda assim tenho sérias dúvidas acerca dessa proposição, pois nem mesmo os cristãos se entendem quanto a sua interpretação.

Veja como isto é perturbador. Lutero, aquele famoso monge católico que no século 16 teve a revelação de Deus para interpretar a Bíblia e revoltar-se contra certas práticas da Igreja Católica, não teve a mesma iluminação de Deus para aceitar os judeus como o povo eleito, pois ele “...chegou a pedir que ateassem fogo às sinagogas e escolas judaicas, além de afirmar que os judeus deveriam ter as casas destruídas, assim como os bens e livros religiosos apreendidos”.

Martinho Lutero foi “um exemplo assustador do cristianismo antijudaico”.

A que ponto chegou a intolerância religiosa de um ícone do protestantismo, reverenciado hoje por muitos como o grande reformador do cristianismo! Atitude extremista que repudio veementemente. Da mesma forma que repudio as atitudes de Moisés e de Benjamin Netanyahu.  

A Bíblia é aceita como “O Livro” apenas pelos cristãos, e ainda assim nem mesmo todos os cristãos têm o mesmo entendimento quanto ao que ela ensina. Se não fosse assim não existiriam tantas Igrejas e doutrinas diferentes e, o que é pior, tão divergentes. Nem mesmo os próprios judeus a aceitam em sua totalidade como A Palavra de Deus e nem sequer acreditam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E nisto residia a atitude bárbara e condenável de Martinho Lutero em relação aos judeus.

A Bíblia não pode ser usada para resolver todos os problemas do mundo, pois ela não é unanimidade como Palavra de Deus. A maior parte dos povos do mundo tem outros livros sagrados como seus orientadores morais e religiosos. Pretender impor à força a Bíblia ao mundo é algo que ultrapassa as raias da loucura.

Como se pode convencer um muçulmano, um budista, um hindu, um ateu... que Israel é o povo eleito se eles não têm a Bíblia como A Palavra de Deus? É tarefa impossível.

Apenas cerca de 1/3 da população mundial é formado por cristãos, com todas as suas diferenças, muitas vezes irreconciliáveis. Então, vamos impor aos outros povos que Israel é a nação eleita, porque a Bíblia assim o afirma?

Para 2/3 do mundo Israel é apenas mais um povo que habita este planeta e deve se submeter às regras e leis dos organismos internacionais como todos os outros povos, independentemente do que a Bíblia diz a seu respeito. E isso me parece o racional.

Há ensinamentos bíblicos que são universais e podem e devem ser ensinados a todos os povos, como é o caso do amor ao próximo. Quanto à eleição de Israel e sua imposição ao mundo como povo especial, é simplesmente impraticável.

A propósito, se judeus e palestinos se amassem não haveria guerra entre os dois povos.

Os crimes e o terrorismo do Hamas não justificam os crimes hediondos de Israel.

O mais impressionante e irônico em toda essa história, quer me parecer, é que os cristãos, em nome da defesa incondicional de Israel, se esquecem dos ensinamentos daquele a quem os judeus nunca aceitaram como O Messias. 

Portanto, e para concluir, quero deixar clara minha opinião. É muito simples. Se Israel é injustiçado e sofre agressões eu estou do lado de Israel. Se Israel comete injustiças e faz agressões, inclusive contra o povo palestino, eu fico do lado oposto a Israel.    

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Divagação sobre Deus, Lúcifer e o Homem

Por Saulo Alves de Oliveira

Deus criou Lúcifer perfeito, mas com a possibilidade de escolher o mal, e foi o que aconteceu.

Como se explica que, de um ser que era intrinsecamente bom, pois tudo que Deus fez era bom, pôde surgir de repente a iniquidade?

Tudo era luz e, do meio da luz, surge as trevas.

O mal que surgiu no coração de Lúcifer veio do nada?

“Uma árvore boa não pode dar frutos maus; nem uma árvore má dar frutos bons”, já dizia o Filho daquele que criou Lúcifer.  

Onde estava o mal, a iniquidade, para que Lúcifer pudesse optar?

Ora, teria sido Deus apanhado de surpresa, porquanto não sabia que Lúcifer iria se revoltar contra Ele?

Claro que não, pois do contrário Deus não seria Deus. 

Se Ele sabia (Deus é onisciente), Ele poderia ter evitado (Deus é onipotente), entretanto não evitou.

Portanto, racionalmente só posso concluir que Deus teve responsabilidade no surgimento do mal, se é que Lúcifer é a razão de todo o mal entre os seres humanos.

Deus criou o Homem perfeito, mas com a possibilidade ou o livre arbítrio para escolher ou não o mal, e lamentavelmente a segunda opção foi a vencedora.

O próprio Deus criou o cenário para que tal espetáculo tivesse a possibilidade de acontecer, ao colocar no jardim a árvore do conhecimento do bem e do mal.

Deus para ser Deus não precisava ter criado este minúsculo e insignificante planeta e colocado aqui um ser que Ele, Deus, sabia que iria cair e assim transmitir aos seus descendentes toda a miséria e maldade que já aconteceu na Terra, está acontecendo e ainda vai acontecer.

E o pior: Deus sabia que, em consequência da atitude dos primeiros pais, teria de lançar no tormento eterno uma multidão enorme de seres humanos.

Sabendo antecipadamente tudo que iria acontecer, ainda assim Deus decidiu criar o ser humano, cuja não existência não lhe fazia falta alguma.

Portanto, racionalmente só posso concluir que Deus tem sim responsabilidade quanto a tudo que aconteceu e está acontecendo em nosso sofrido planeta Terra. 

domingo, 22 de junho de 2014

Noé e as sete perguntas a Deus

Por Saulo Alves de Oliveira

Quando eu era criança meu pai contava, nos cultos domésticos, várias histórias bíblicas. Eu gostava muito das histórias de Adão e Eva, do pequeno Moisés, José do Egito, Davi e Golias e tantas outras.

Entretanto, dentre todas as histórias bíblicas uma das mais interessantes era a de Noé. Normalmente a história de Noé é contada para as crianças de forma suavizada, sem a carga emocional e sem ênfase na crueldade que ela encerra.

A visão que se transmite é aquela de uma enorme fila de animais caminhando obedientemente lado a lado para dentro de um enorme navio, pois Deus, misericordiosamente, não quis destruir por completo toda a vida na Terra. Hoje, evidentemente, não sou mais criança e vejo a história do velho patriarca com outros olhos.

Como consequência do pecado da humanidade, Deus resolveu destruir com um grande dilúvio quase todos os homens e animais terrestres e aves que habitavam a Terra. Deus decidiu preservar apenas o “justo” Noé, sua família e casais de exemplares de todos aqueles animais. Para salvar os escolhidos, Deus mandou Noé construir, previamente ao grande dilúvio, uma enorme arca.

Depois de muitos anos o navio foi finalmente concluído. Então, Noé, sua família e os animais escolhidos entraram no grande barco. Deus fechou a porta por fora e em seguida mandou muita chuva, mas muita chuva mesmo, de forma tal que toda a terra submergiu sob as águas e todos os que ficaram do lado de fora morreram afogados, inclusive todas as crianças e animais – inocentes, ressalte-se.              

Acho razoável admitir que todos os peixes e os outros animais marinhos não foram eliminados. Sem dúvida foram privilegiados (Por quê?).  

O interessante é que tudo isso foi informado previamente a Noé e ele não esboçou a menor intenção de questionar essa decisão de Deus, tal qual fez Abraão no episódio da destruição de Sodoma e Gomorra.

Noé, entretanto, poderia ter feito as seguintes perguntas a Deus:

“Senhor, por que Tu não ages de forma seletiva e preservas todos os inocentes?”

“Por que não salvas todas as crianças e eventualmente alguns justos que existam sobre a terra?”

“Dos pecados dos homens, que culpa têm os animais?”

“Por que não preservas todos os animais? Há algum sentido em matá-los?”

“Deve o inocente sofrer as consequências do pecado dos maus?”

“Por que não fazes justiça para com todos os inocentes?”

Se eu fosse Noé teria feito tais perguntas a Deus.

E você, teria feito o mesmo? Ou não?

sábado, 7 de junho de 2014

Aos virtuosos e aos canalhas

Eis o que um “amigo” me falou:

– Não me parece tarefa nada fácil o próprio indivíduo descrever o seu caráter moral e a sua personalidade. Se me fizessem tal sugestão, certamente eu não teria condições de fazê-lo de forma imparcial. Julgo que é muito difícil falar acerca de si próprio sem ser indulgente consigo mesmo. Quem sabe pouquíssimas pessoas no mundo tenham essa capacidade. “Sair” do próprio corpo, ver-se à distância e analisar, com isenção, suas virtudes e falhas deve ser um exercício extremamente complicado, e até interessante.  

– Possível? É provável. Talvez  para aqueles que atingiram um nível espiritual muito elevado. E com certeza eu não estou nesse seleto grupo de seres que a Terra já produziu.

Entretanto, com base em avaliações de parentes, amigos e conhecidos parece que esse meu “amigo” é uma pessoa calma, ponderada, pacífica e às vezes até passivo demais. Não tenho certeza se isso é bom ou ruim em todos os momentos da vida. Parece que há situações em que a pessoa precisa gritar, perder um pouco o controle e se impor de forma mais contundente.

Já ouvi falar de alguém que era “manso e humilde de coração” e certa vez saiu derrubando mesas e cadeiras de mercadores e cambistas dentro de um templo. E essa pessoa tinha um açoite de cordas na mão. Quer me parecer que um açoite de cordas não é propriamente um instrumento para gentilezas, mas para atitudes ríspidas e de enfrentamento. Ou não?  

E continuou o meu “amigo”:

– Todavia, independentemente de qualquer adjetivação que me seja atribuída, hoje eu quero me dar o direito de transgredir quaisquer virtudes que me caracterizam. Hoje eu quero me dar o direito de perder a paciência e desabafar, quem sabe até xingar.

– Se você acha que o Brasil, por qualquer motivo, não deveria sediar a Copa do Mundo de Futebol, você tem todo o meu respeito. 

– Se você acha que há no País coisas muito mais importantes do que a Copa para preocupar os governantes, eu concordo com você.

– Se você acha que os governantes foram – e estão sento – incompetentes na preparação do Brasil para a Copa, essa também é a minha percepção.

Nesse momento ponderei: – Caro “amigo”, só faço uma ressalva: por que as pessoas só culpam o governo federal pela não conclusão das obras a tempo? Parece até que os governadores e prefeitos das cidades sedes não se empenharam para trazer a Copa para as capitais dos seus estados e não têm, provavelmente, a maior parte da culpa pelos atrasos das obras! Por que não criticar também todos os governadores e todos os prefeitos das cidades sedes?

Parece que meu “amigo” não deu muita atenção à minha observação e continuou:

– Se você acha que houve corrupção nas obras da Copa ou nas obras de mobilidade urbana, eu não posso simplesmente dizer que concordo com sua observação, mas admito que é possível, dado o histórico de malversação dos recursos públicos em nosso país. Afinal de contas a inteligência pode não ser minha maior virtude, mas não sou tão estulto assim. Todavia, entendo que não se pode acusar ninguém sem provas.

– Se você acha que o Brasil deixou de investir em saúde e educação por conta da Copa, eu não concordo com você, mas compreendo sua indignação.

– Se você acha que o Brasil precisa investir mais em saúde, educação e segurança e gerir melhor esses recursos, eu estou de pleno acordo com sua opinião.

– Se para você tanto faz o Brasil perder ou ganhar a Copa, tudo bem, trata-se de uma questão pessoal e de consciência de cada um, não me cabe fazer qualquer julgamento. Ninguém é pior ou melhor por isso.

– Se um ou mais desses perfis o caracterizam, você é uma pessoa do bem.

Sugiro, a essa altura, que não continue lendo este texto, pois meu “amigo” perdeu o controle a partir daqui.

Mais uma vez o meu “amigo”:

– Todavia, qualquer brasileiro – inclusive você, Saulo, se for o seu caso – que porventura torce para que a Copa seja um fiasco, não passa de um canalha.

– Se você torce para que a Copa seja um caos, para prejudicar partido A ou B e beneficiar partido C ou D, você é um crápula da pior espécie.

– Se você torce para que haja nestes dias uma convulsão social que imponha medo e pavor aos turistas estrangeiros e nacionais, e manche a imagem do Brasil lá fora, você não passa de um verme vil e abjeto. 

– Se você torce para que haja uma catástrofe ou um grave acidente de repercussão internacional, você vale menos que a pasta informe que o gado libera nos campos ao esvaziar seus intestinos. Os excrementos do gado ao menos têm alguma serventia: adubam a terra e fazem as plantas crescerem. Quanto a você...

– Se você se enquadra em qualquer um desses perfis, você é uma pessoa do mal. Portanto, não tenho interesse algum em manter qualquer relacionamento de amizade com pessoas dessa espécie, seja você de perto ou de longe, tenha o mesmo sangue ou não, esteja sentado na cadeira principal ou no último banco.

E assim, abruptamente, meu “amigo” terminou suas palavras.

Após refletir algum tempo, qual foi minha reação?

Concordo com tudo o que você falou, caro “amigo”.

Saulo Alves de Oliveira

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Parabéns Sílvia

Querida Filha,

Há trinta e três anos nasceste. Era uma madrugada radiante. Para nós, teu pai e tua mãe, diferente de todas as outras. Chegara a tão esperada “Sílvia” dos meus sonhos de criança.

Na primeira vez que te vi, poucos minutos após teu nascimento, algo me chamou a atenção: teus dedos finos e longos. Pensei: será uma mulher alta e bonita. Percebi, já na adolescência, fui um profeta.

Neste teu aniversário, recebas os meus parabéns.

E mais: desejo com todo o ardor da minha alma e amor no coração que realizes todos os teus sonhos junto com nossa pequena e querida Paola.

Tu és uma pessoa muito especial. Companheira daquelas conversas especiais acerca de Deus, do Cosmos, da vida e seu sentido...

Que tu penses, neste momento, no maior de todos os filósofos, no maior de todos os escritores, no maior cientista que a Terra já abrigou, no mais importante político de todos os tempos, no ser humano mais inteligente, ou em qualquer outro ser humano brilhante.

Pensaste? Então, saibas que para mim tu és muito mais importante do que qualquer um deles.

Jamais te consideres menor do que aquele que se acha grande nem maior do que aquele que as outras pessoas julgam o menor. Todos somos animais humanos. Nascemos da mesma forma e terminaremos da mesma forma. Já dizia o Eclesiastes: “...todos são pó, e todos ao pó retornarão”. Portanto, não há razão para orgulho e soberba. Só os estultos não entendem isso.

Que tu continues sendo essa pessoa questionadora que não se conforma com explicações irracionais ou fantasiosas acerca da vida.

Recebas um forte abraço e um grande beijo deste pai que te ama e que sempre estará ao teu lado.

Saulo

Em 07/05/2014

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sobre o mal

Sempre questionei a existência e o porquê do mal. Se eu fosse Deus não o teria criado. Acho que jamais entenderei, com os olhos da razão, esse processo de surgimento e existência do mal entre os seres vivos. Digo seres vivos porque o mal não é exclusividade dos seres humanos.    

Nós temos duas gatas em nossa casa. Uma de comportamento similar aos outros gatos que já viveram conosco, isto é, se satisfaz com a alimentação “artificial” que lhe oferecemos todos os dias. A outra – “batizada” com o nome Sara pela minha neta – tem hábitos comuns aos animais que vivem na natureza, bem diferentes de todos os outros gatos que já se foram. Ela é uma exímia caçadora. Às vezes, pela manhã, quando abro a porta da área de serviço só encontro as penas dos pássaros devorados durante a noite. Por vezes encontro apenas a cabeça de uma lagartixa no quintal de casa.

Suas vítimas: pássaros, ratos, lagartixas, borboletas e outros insetos. Diversas vezes tive de resgatá-las das suas garras e dentes. O interessante é que, antes de devorar a presa, ela brinca com o animal até as forças deste se esgotarem, numa atitude “cruel” que mais parece sadismo.

Você já viu um bando de leões devorando uma zebra ou um búfalo? Um verdadeiro espetáculo de brutalidade e morbidez. É óbvio, Sara e os leões não têm consciência do mal e o fazem por instinto, como todos os outros predadores na natureza, entretanto isso não elimina a maldade intrínseca em seus atos. 

Então alguém me diz: o homem é o culpado de todo o mal, pois rejeitou Deus e, por esse motivo, a maldade entrou no mundo e alcançou toda a Terra e seus habitantes. E complementa: os seres humanos sofrem pela desobediência de Adão e Eva e porque não querem se submeter à vontade soberana de Deus que é perfeita e boa.

Na realidade, nem eu nem você nada temos a ver com o pecado dos primeiros pais. Eles devem pagar pelos seus erros e nós devemos pagar única e exclusivamente pelos nossos pecados. Como nós podemos ser responsabilizados por algo que se passou, segundo o criacionismo, ressalte-se, há cerca de 6.000 anos? Nada mais sem sentido.

E tem alguns complicadores nessa história.

Quantos se submetem à vontade de Deus, todavia levam uma vida de sofrimento e dor! Ou você não conhece alguém assim? Portanto, a premissa de que o homem sofre porque não se submete à vontade de Deus não é absoluta.

Quantos nascem em sofrimento, vivem as consequências da maldade humana, sofrem, sofrem, sofrem... e morrem sem ao menos alcançar a idade da razão, isto é, a consciência do pecado! Portanto, a premissa de que alguém sofre em consequência dos seus próprios pecados também não é absoluta.

Que pecado cometeu o garoto Bernardo Boldrini para sofrer o que sofreu e ter a morte que teve com apenas 11 anos de idade? Para citar só um caso dentre inúmeros outros.

Reflita.

Pense nessas questões.

Saulo Alves de Oliveira

terça-feira, 22 de abril de 2014

Espetáculo chocante e deprimente nas Crônicas

Às vezes alguma coisa me faz lembrar uma história bíblica específica. Então vou à Bíblia e a releio. Todavia há relatos que me prendem e, portanto, não consigo seguir adiante. Fico como os bovídeos, remoendo, remoendo e remoendo. Só que com uma diferença: não consigo deglutir.

Uma dessas histórias é a da consagração do templo, a casa do Senhor, edificado pelo rei Salomão, que se encontra no segundo livro das Crônicas 7.1-10. E a parte que incha na boca e se transforma numa massa amarga e dura que, por mais mastigada que seja, não consegue passar pela goela é o versículo 5. 

Para dizer a verdade, eu nunca me conformei com as respostas para as matanças de animais no Velho Testamento.

Na consagração do templo, Salomão sacrificou, em apenas sete dias, 22.000 bois e 120.000 ovelhas. Mesmo que tenham sido quatorze dias, “...pois haviam celebrado por sete dias a dedicação do altar, e por sete dias a festa”, ainda assim atingiram a terrível e chocante marca de mais de dez mil animais por dia ou sete animais mortos a cada minuto!

Quando ainda muito jovem, eu fui a um matadouro e sei como é deprimente o espetáculo da matança de animais. Por conseguinte, jamais quero repetir a experiência. 

Antes eu lia tal passagem e não tinha muita dificuldade para digeri-la. Hoje, não. Não vejo justificativa alguma razoável para isso. Não vejo justificativa alguma para essa sede insaciável de sangue. Considerando o Deus transcendental, insondável, não vejo sentido algum em sua satisfação com o “cheiro suave” de animais queimados. Assim, sou tentado a pensar que há algo desconexo nessa história ou, como se diz popularmente, alguma coisa não bate.

Sob o ponto de vista do Deus onipotente, há algo ainda mais grave e de justificativas que nada justificam: a matança ou extermínio de seres humanos – homens, mulheres, velhos, crianças inocentes – e animais, também inocentes, ordenadas por Jeová através de ou executadas por homens como Moisés – o manso!, é isso mesmo que vocês leram, o manso – e outros. Ele, o Senhor, poderia ter sido seletivo com os maus.

Não dá mesmo para assimilar. Por mais que eu tente, vira uma bucha na boca e não desliza pela garganta. 

Tais histórias me afligem e me são profundamente desconfortáveis, pois me levam a reflexões profundamente sérias. Tais reflexões têm implicações ainda mais sérias, posto que me levam a conclusões que reluto em aceitar, e que ficam guardadas em um cofre no mais íntimo da minha alma, do qual só eu tenho a chave.    

Quanto a você, nada posso dizer. Talvez não veja nada demais ou nunca parou para pensar ou simplesmente isso lhe é indiferente. Quem sabe encontre uma resposta que lhe satisfaça!

Saulo Alves de Oliveira