sábado, 20 de março de 2021

É possível viver sem ir ao templo?

Por Saulo Alves de Oliveira

É importante ir à igreja, ou melhor, ao templo?

No templo ocorre aglomeração?

O coronavírus se espalha em aglomerações?

É importante evitar aglomerações nos templos?

As igrejas evangélicas estão sendo perseguidas com essa medida?

Apenas as igrejas evangélicas têm de se submeter a essa regra?

As pessoas podem viver sem participar de grandes aglomerações nos templos?

Você pode fazer devocionais em casa durante a vigência da proibição de cultos presenciais?

Você pode assistir a cultos e outros eventos pela internet?

Você pode ouvir a palavra do seu pastor e outros líderes em casa, pela TV ou internet?

Você pode ir ao templo fazer orações em grupos muito pequenos, respeitando todas as regras de prevenção da Covid-19, tais como: uso de máscaras, distanciamento das outras pessoas, uso de álcool, etc.?

A medida é para sempre?

Com o grande aumento dos casos haverá o colapso dos sistemas de saúde nos hospitais, como, por exemplo, falta de UTIs e de medicamentos?

Pessoas atingidas por outras doenças também poderão ficar sem assistência médica nos hospitais e postos de saúde?

Com o agravamento da situação, os médicos e enfermeiros aguentarão a sobrecarga de trabalho?

Quando o pico da doença passar as coisas voltarão ao normal?

Quando todos forem vacinados a vida voltará ao normal?

Onde está escrito que “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas?”

Por que muitos pastores são contra as medidas que proíbem aglomerações nos templos, como cultos e outras reuniões?

- Com relação à última pergunta, eu tenho uma provável explicação, todavia prefiro nada comentar. O que você acha?

Pense e responda com sinceridade a todas as perguntas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O erro foi de Acã, não de suas filhas e filhos e animais

Por Saulo Alves de Oliveira

Após caminhar 40 anos no deserto sob o comando de Moisés, finalmente o povo de Israel chegou à terra prometida. Todavia a terra não estava desabitada e disponível para os israelitas. Foi preciso muito derramamento de sangue para conquistá-la. Apesar de todo esforço e sacrifício pessoal, Moisés não entrou na terra e a conquista de Canaã foi comandada pelo sanguinário Josué.

Durante as matanças e genocídios cometidos por Israel nas guerras pela tomada de Canaã sob o comando de Josué, ocorreu um episódio que desperta interesse e leva pessoas mais sensíveis a reflexões perturbadoras.

Depois de conquistar a importante e fortificada Jericó, Josué resolveu tomar uma pequena cidade chamada Ai. Para conquistar Ai, que tinha apenas 12 mil moradores, Josué mandou um pequeno contingente do seu exército, cerca de 3 mil homens.

No entanto a empreitada foi um desastre e os poucos homens de Ai conseguiram rechaçar o ataque de Israel, cujos soldados fugiram diante dos homens de Ai. Apenas cerca de 36 israelitas foram mortos pelos guerreiros de Ai ao repelirem a agressão externa, na defesa da sua terra e do seu povo.

E por que os homens de Israel foram derrotados no primeiro confronto com o povo de Ai? Castigo de Deus. Por quê?

Deus havia ordenado que ao invadir Jericó todas as pessoas e toda a cidade e seus bens fossem considerados “anátema”, exceto a prostituta Raabe e sua família e toda a prata e o ouro e os vasos de bronze e de ferro.

Parece que a palavra anátema tem mais de um significado na Bíblia. No Velho Testamento, ser “anátema” significa pessoa ou objeto destinados à destruição, portanto não podiam ser tomados pelo povo de Israel e nem ao menos tocados. Por que Deus, o Ser muito acima do sublime e do transcendental, estabeleceu um critério tão terrível e próprio de seres humanos para condenar pessoas, animais e coisas? Sinceramente, não sei.

A cidade de Ai, por conseguinte, conforme Josué 7:11, também estava sob a condenação do anátema.

No entanto, por ocasião da investida contra Ai, um dos soldados de Israel, chamado Acã, cobiçou e resolveu tomar para si algo dos bens do povo atacado, isto é, do anátema, além de ter roubado e mentido, como ele próprio confessou:

“Verdadeiramente pequei contra o Senhor Deus de Israel, e fiz assim e assim. Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro, do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata por baixo dela.” Josué 7:20, 21

Parece que dessa vez Provérbios 28:13 não se cumpriu:

“O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia.”

Vê-se, pois, que Acã não alcançou misericórdia.

Confessado o crime, qual foi a punição? Pena de morte, por apedrejamento e fogo, sem misericórdia e sem direito a apelação. Aqui chegamos, conforme pretensão inicial, ao “x” da questão deste pequeno comentário. Não foi apenas Acã que pagou pelo seu pecado “pessoal”.

"Então Josué, e todo o Israel com ele, tomaram a Acã, filho de Zerá, e a prata, e a capa, e a cunha de ouro, e seus filhos, e suas filhas, e seus bois, e seus jumentos, e suas ovelhas, e sua tenda, e tudo quanto ele tinha; e levaram-nos ao vale de Acor. E disse Josué: Por que nos perturbaste? O Senhor te perturbará neste dia. E todo o Israel o apedrejou; e os queimaram a fogo depois de apedrejá-los. E levantaram sobre ele um grande montão de pedras, até o dia de hoje; assim o Senhor se apartou do ardor da sua ira; pelo que aquele lugar se chama o vale de Acor, até ao dia de hoje." Josué 7:24-26

Sempre me perguntei: se o erro foi cometido só por Acã, por que seus filhos e suas filhas e todos os seus animais foram apedrejados e queimados juntamente com ele? Apedrejar e queimar um só homem já é um espetáculo bárbaro e profundamente chocante. O que dizer então de toda sua família e seus animais, que não tinham absolutamente nada a ver com seu erro?

Há uma interpretação que diz que a narrativa da história deixa claro que os familiares de Acã sabiam do seu pecado e, sem dúvida, concordaram. Nada mais equivocado. Não é possível afirmar que não sabiam ou que não compactuaram com o erro, porém não há nenhuma evidência em sentido contrário.

E tem uma evidência que é fortemente contrária a essa interpretação: por que todos os animais de Acã também foram mortos? Também sabiam e concordaram com o seu pecado?

Mas a história de Ai não se encerra aí. Corrigido e punido o erro, com a destruição literal de Acã e toda a sua casa e seus bens, Israel voltou a atacar Ai, dessa vez com 30 mil soldados, e a destrói por completo. Mata todos os seus 12 mil moradores, toma para si o gado e os despojos da cidade e a queima totalmente, deixando apenas um montão de ruínas.

Há histórias no Velho Testamento que, confesso-lhes, nunca entendi sua razão e sentido e que me chocam, visto que algumas características de Deus conforme registradas no VT me parecem não compatíveis com o Deus grandioso, criador de tudo que existe e daquilo que ainda não sabemos se ou que existe, onipotente, misericordioso e, sobretudo, “...porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre”.

O interessante é que alguns evangélicos se chocam quando ouvem falar ou veem imagens de apedrejamentos perpetrados por muçulmanos radicais fundamentalistas e não se chocam com esse ou outros relatos bíblicos similares!

Há aqueles que usam algumas histórias bíblicas em seus sermões, sem importar toda a crueldade nelas contida, como exemplos para as vidas das suas ovelhas e demais ouvintes. Parece que seus olhos espirituais – ou seriam os olhos da razão? – se fecham convenientemente – por medo? –, talvez para não enxergarem verdades duras e inconvenientes (!?). E tiram dessas tragédias de violência e crueldade “lições importantíssimas”.

Alguns vibram de alegria com tais tragédias. Por exemplo: não satisfeito em derrotar o “gigante” Golias, Davi decepou-lhe a cabeça, e a explosão de glórias e aleluias invade o local. “O Senhor é varão de guerra e poderoso nas batalhas!”, vangloriam-se e exclamam em êxtase diante do filisteu, cabeça nas mãos de Davi, e corpo inerte numa poça de sangue. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão."

Por Saulo Alves de Oliveira

“Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” 1 Coríntios 10: 13

Por mais que os anos se passem e por maior que seja a quantidade de informações que absorvemos sempre nos surpreendemos com coisas novas. Eu nunca tinha ouvido ou lido a frase que dá título a este comentário. Tomei conhecimento há poucos dias. Como é do meu interesse tudo que diz respeito a Deus, inclusive qualquer questionamento acerca de sua existência ou não, a frase chamou minha atenção de forma muito especial.

Ela foi encontrada na parede da cela de um prisioneiro judeu num campo de concentração nazista.

A criatura que fez essa afirmação chocante provavelmente era um judeu, integrante do “povo escolhido”. Esta expressão “povo escolhido” me parece muito controversa, especialmente se vier acompanhada do complemento “por Deus”. Certamente o autor da frase morreu asfixiado com gás, de fome, sede, frio, maus tratos ou, quem sabe, fuzilado. Você já viu as imagens daqueles mortos-vivos, verdadeiros cadáveres ambulantes, pele e osso, nas fotos ou vídeos dos campos de concentração?* Você já viu aquelas imagens de valas repletas de corpos esqueléticos, amontoados uns sobre os outros, dezenas ou centenas? Talvez essa tenha sido a condição que o fez desabafar com uma frase tão chocante.

Fico imaginando quanto sofrimento seu autor passou e presenciou. Eu acho que para chegar a esse nível de lamento, só alguém que foi submetido a um grau de sofrimento muito acima dos limites a que o ser humano é capaz de suportar. É o grito de desespero de uma alma profundamente amargurada por indescritível dor.

Você já visitou um campo de concentração na Alemanha? Eu já. E me senti muito mal. Se você tivesse estado no lugar daquele judeu, e escapado, certamente seus sentimentos de condescendência e boa vontade aflorassem num grau tal que não lhe restaria outra alternativa a não ser sentir-se tomado de profunda compreensão e compaixão pelo autor da frase.

Dentre as várias formas de execução que foram apresentadas pelo guia ao grupo que visitava o local, lembro-me de uma que não era das mais cruéis, visto que não causava tanto sofrimento à vítima, bem como evitava que o executor, eventualmente alguém mais sensível e que matava sua vítima talvez forçado pelas circunstâncias, enfrentasse o terror nos olhos de quem estava prestes a ser executado.

O prisioneiro era levado a uma espécie de ambulatório com a promessa de que iria receber cuidados médicos. Lá ele era instado a despir-se e a entregar qualquer objeto de valor que eventualmente ainda estivesse em seu poder.

Primeira providência dos “cuidados médicos”: pesar o prisioneiro. Este subia em uma balança, de costas para uma parede próxima, logo atrás de si. Do outro lado da parede havia um outro cômodo. Na altura da cabeça do “paciente” tinha uma abertura, uma fresta e do outro lado da parede havia um soldado com um fuzil nas mãos. Quando o “paciente”, tranquilo, estava na balança, o soldado posicionava o fuzil e atirava em sua cabeça ou nuca. O carrasco, ou executor, não via o terror no olhar do desafortunado prisioneiro, como acontecia no caso de um pelotão de fuzilamento, nem o prisioneiro sentia os horrores próprios de quem está prestes a ser executado. Morria feliz por estar recebendo “cuidados médicos”. Talvez essa fosse a execução mais “humana” em um campo de concentração nazista, se é que se pode atribuir esse adjetivo ao assassinato de um ser humano.   

Certamente essa é a frase mais impactante e perturbadora que já li ou ouvi em toda minha vida.

Lamentavelmente, parece que o autor da frase não recebeu o escape e, portanto, não suportou. 

*Eu pensei em colocar uma foto com imagens de pessoas em um campo de concentração, mas desisti. Se alguém tiver interesse é só procurar na internet que facilmente encontrará.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

As feiuras da Natureza ainda me perturbam

 Por Saulo Alves de Oliveira

Você diria que esta fofura é capaz de tanta crueldade?  

É manhã de um belo dia ensolarado desta semana. Ponho o café e a água na máquina e, enquanto aguardo o preparo do líquido preto matinal, sento-me numa poltrona na área de serviço da minha casa. De lá, vislumbro toda a lateral da casa até a edícula ao fundo. Também dá pra ver uma pequena parte do maravilhoso azul do céu sem nuvens. Que cena inspiradora, não é mesmo? 

De repente, quase chegando ao quintal, percebo duas pequenas manchas escuras próximas ao meu gato, que se encontra deitado a pouca distância. O nome dele é Leonel, mas em casa nós o chamamos carinhosamente de Leo.

Fui até o local e percebi que eram dois filhotes de pássaros mortos. Pareciam ter pouquíssimos dias de vida, pois seus corpos ainda estavam cobertos de penugem. Suas penas não pareciam ser as de pássaros adultos.

Quem era o assassino?, pensei, mas logo concluí. Lá estava ele, deitado bem próximo. Exatamente, seu Leo.

Lamentavelmente, é isso o que natureza "manda" o meu gato fazer. Matar para comer? Não. Ele tem comida a qualquer hora em nossa casa. Brincar com os pássaros, maltratá-los até à morte? Sim.

Já tive a oportunidade de resgatar, com vida, algumas vítimas das suas garras e presas. Desta vez, não foi possível.

Muitos dizem que a natureza feita por Deus é bela. Eu também me encanto com certos espetáculos da Natureza e suas belezas, mas também me choco com suas feiuras. E esta sem dúvida é uma delas.

Não foi a primeira vez que algo semelhante aconteceu. A foto ao lado é de fevereiro de 2020. Em primeiro plano, a vítima. Dessa vez, um pássaro já bem desenvolvido. E o assassino? O mesmo Leo, tranquilo e deitado próximo, acima e à direita na imagem, como se nada tivesse acontecido.

Infelizmente, não tive a ideia de fotografar o “crime” desta semana, até porque o estado de um dos pássaros não era nada agradável. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Capricho do Criador?

Por Saulo Alves de Oliveira

Ao falar da Teoria da Evolução algumas pessoas cometem um equívoco ao se sentirem diminuídas porque o ser humano veio do macaco.

Tal fato, se fosse verdadeiro, não me seria demérito algum.

Essa ideia, todavia, comum a muita gente, é um engano na compreensão da Teoria da Evolução, que é seguramente uma das mais importantes descobertas do pensamento humano.

O homem não veio do macaco.

Na realidade, os seres humanos e os macacos têm o mesmo ancestral, isto é, o mesmo animal deu origem a todos os macacos e aos grandes primatas, incluídos aí os seres humanos.

Dos grandes primatas, os macacos que não têm rabo, nossos parentes mais próximos são o chimpanzé e o bonobo, ou, dizendo de outra forma, o mesmo animal deu origem ao homem, ao chimpanzé e ao bonobo.

A propósito, você já se fez as seguintes perguntas:

Por que nós somos tão parecidos com os chimpanzés?

Por que nascemos da mesma forma?

Por que os nossos corpos têm os mesmos órgãos?

Por que temos trinta e dois dentes como os chimpanzés e todos os outros grandes primatas?

Por que fazemos sexo da mesma forma?

Por que comemos e excretamos da mesma forma?

Por que morremos da mesma forma?

Seria tudo isso um mero capricho do Criador?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O mal poderá surgir de novo?

Por Saulo Alves de Oliveira

Se tudo o que Deus fez era bom e perfeito e mesmo assim surgiu o mal, não pela sua vontade - não sei explicar esse processo, dado que Deus é onipotente e onisciente -, o mal poderá surgir novamente depois de concluída a redenção e restauradas todas as coisas, ou seja, depois dos novos céus e nova terra?

domingo, 13 de dezembro de 2020

Atualizar a Bíblia? HEREGE! APÓSTATA!

Por Saulo Alves de Oliveira

Parece que estou ouvindo o monge medieval gritar “queimem-no na fogueira!” ou “estiquem-no no ‘Balcão da Tortura’, até que suas articulações se partam e seus membros sejam arrancados do tronco!” Ou ainda o sacerdote veterotestamentário incitar a turba “apedrejem-no até a morte!”

Recentemente, o pastor Ed René Kivitz fez uma afirmação que causou o furor dos meios evangélicos fundamentalistas. Alguns dos “santos”, exatamente aqueles que têm uma reserva especial no Céu e que lá chegarão na frente de todos os outros, lançaram-no no inferno com alma e corpo, não lhe tirando sequer as roupas e os sapatos.

E qual o motivo de toda essa ira “santa”? Porque, ao falar sobre a questão da homossexualidade, ele disse que a Bíblia precisa ser atualizada. (sic)

No meu ponto de vista, um equívoco do pastor Ed René Kivitz. A Bíblia não precisa e não deve ser atualizada e por um motivo muito simples.

Se qualquer pessoa julgar inadequado um texto bíblico para os dias atuais – imagine daqui a 100, 200... 500 anos! – e resolver atualizá-lo para conformar seu conteúdo a uma situação do nosso tempo, daqui a alguns anos nós teremos um outro livro, não mais a Bíblia.

Talvez algo parecido, isto é, atualizar ou modificar a Bíblia para adequá-la ao entendimento de líderes religiosos, aconteceu nos primeiros séculos do cristianismo.

Segundo o Dr. Bart D. Ehrman, especialista em Novo Testamento, igreja primitiva e manuscritos antigos – autor do livro O que disse Jesus? O que Jesus não disse? –, alguns estudiosos acreditam que os versículos 34 e 35 do capítulo 14 de 1 Coríntios não foram escritos por Paulo, mas foram acrescentados por copistas como uma espécie de nota marginal, portanto não faziam parte da epístola original de Paulo. Tanto é que em alguns manuscritos essa anotação (versículos 34 e 35) aparece depois do versículo 33 e em outros aparece depois do versículo 40. Infelizmente, sabe-se que não existem os originais dos livros da Bíblia, mas cópias de cópias de cópias de cópias... portanto, infelizmente não podemos confrontar o que temos hoje com a versão original. Tal fato, a meu juízo, é extremamente prejudicial, sobretudo se queremos conhecer o que de fato saiu da pena dos reais escritores da Bíblia.

Como havia, nos primórdios do cristianismo, uma grande polêmica acerca da participação das mulheres nas igrejas, tais copistas, favoráveis à discriminação das mulheres, teriam acrescentado essa nota que depois foi repassada como sendo de autoria de Paulo, o que lhe conferia autoridade apostólica. Realmente, parece ter sentido essa observação, pois, se os versículos 34 e 35 forem retirados do contexto, em nada prejudica o tema que Paulo tratou no capítulo 14.

Portanto, o que se faz necessário é entender que alguns textos bíblicos foram escritos para um determinado povo, em um determinado tempo, em um determinado contexto e não se pode pretender que as pessoas vivam hoje segundo as regras que eram válidas para aquele tempo e circunstância.

Três exemplos do Velho Testamento:

1 – Se uma mulher, para defender seu marido em uma briga com outro homem, pegasse o agressor pelos testículos, mandava a Lei que sua mão fosse decepada (Dt. 25. 11, 12). Algo bárbaro e inaceitável, e com toda a razão, nos nossos dias. Mas não é necessário retirar ou atualizar tal texto para entendermos que essa atitude é totalmente inaceitável no estágio atual da civilização humana.

2 – A Lei determinava que as mulheres só tinham direito à herança se não existissem herdeiros homens (Nm. 27. 8). Acho que tal princípio é contrário às leis de quaisquer países civilizados nos nossos dias.

3 – “Se alguém ferir seu escravo ou escrava com um pedaço de pau, e como resultado o escravo morrer, será punido; mas, se o escravo sobreviver um ou dois dias, não será punido, visto que é sua propriedade” (Ex. 21. 20, 21). Não se espante, isto está na Bíblia, na Lei Mosaica, ou seja, na Lei que Deus deu a Moisés para orientar a vida do povo de Israel. Se o dono espancasse seu escravo e o escravo morresse debaixo de açoite, o dono seria punido. Todavia se o escravo ficasse apenas respirando, arquejando, quase morto, em consequência do espancamento, e morresse somente 24 ou 48 horas depois, o dono do escravo não seria punido, pois o escravo, pasmem, era sua propriedade. Havia Seres Humanos e seres humanos! A Lei, portanto, admitia que um Ser Humano fosse dono de outro ser humano, ou seja, admitia a escravidão e, sob certa circunstância, livrava o senhor, cuja culpa era evidente, da responsabilidade pela morte do escravo causada pelo próprio senhor. Penso que não é necessário dizer nada sobre a incompatibilidade dessa lei com o progresso da civilização.

Existem muitos outros casos semelhantes, ou até piores, como os apedrejamentos, mas acho que esses três exemplos são suficientes. Tenho certeza, porém, que não falta quem apresente justificativas para todos eles.

E no Novo Testamento, há algum caso que foi escrito para um determinado tempo e circunstância? Sim, já foi citado um exemplo acima. Trata-se de 1 Co. 14. 34, 35, reproduzido abaixo. 

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei.

E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.

Admitamos que o texto de 1 Co. 14. 34, 35, diferentemente do que alegam alguns estudiosos, realmente seja de autoria do apóstolo Paulo.

Algumas pessoas tentam justificar tal ordenança e para isso fazem um enorme contorcionismo para dizer que Paulo não disse o que ele disse, mas o mandamento é claro: no tempo de Paulo as mulheres não podiam falar nas igrejas e, evidentemente, não podiam assumir funções ou cargos de liderança que fossem exercidos nas igrejas.

Há quem afirme que na época de Paulo, na igreja de Corinto, havia uma enorme confusão durante as reuniões ou cultos (cf. 1 Co. 1. 10, 11; 14. 26, 40), dessa forma o apóstolo estava colocando ordem no ritual confuso daquela igreja.

Há quem afirme também que o silêncio das mulheres era uma questão cultural dos gregos e, para não chocar os novos conversos da Grécia, Paulo deu aquela instrução.

Todavia, qualquer que seja a explicação, fica evidente que tal ordenança era para aquela época e para aquela circunstância. É totalmente fora de propósito pretender colocá-la em prática nos dias atuais, a não ser que se viva em uma sociedade extremamente fundamentalista como, talvez, os islâmicos extremistas, judeus ultraortodoxos ou mesmo cristãos radicais, e cujas mulheres aceitem, sem questionar, o julgo masculino.

Na prática, portanto, as mulheres das igrejas cristãs protestantes de hoje não se submetem a esse mandamento de Paulo, ou dos copistas que, segundo alguns estudiosos, o acrescentaram.

Há um outro ensinamento do Novo Testamento que não é praticado nos nossos dias, não porque agride ou discrimine pessoas ou um grupo social, pelo contrário, mas porque ninguém está disposto a abrir mão daquilo que tem, ou seja, dos seus bens, apesar de ter sido ensinado pelo próprio Jesus e praticado pelos primeiros cristãos, que viveram o genuíno comunismo na acepção mais pura do termo, conforme registrado em At. 2. 44, 45:

Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um.

Certa vez, um jovem muito rico procurou Jesus e perguntou-lhe: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna"? Jesus, após algumas considerações iniciais e diante das respostas do jovem, foi decisivo: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me".

Algumas pessoas gostam de relativizar alguns ensinamentos bíblicos e, nesse caso, há quem afirme “mas essa ordenança de Jesus não era para todos os ricos, era específica para aquele jovem”. Não é verdade. As palavras de Jesus eram para todos os ricos. Pode-se concluir do desfecho daquele encontro.

Após o jovem afastar-se triste, porque tinha muitas riquezas, Jesus concluiu: “Dificilmente ‘um rico’ entrará no Reino dos céus”. Ele não disse: “Dificilmente ‘este rico’ entrará no Reino dos céus” (Mt. 19. 23).

Esse texto bíblico não precisa ser atualizado ou contextualizado. Ele simplesmente não é ensinado e muito menos observado nos nossos dias.

Não se vê hoje ninguém ensinando ou recomendando que se faça como Jesus ensinou ao jovem rico, muito menos praticando. O máximo que se ensina é que o cristão não deve ser apegado aos bens materiais, apesar de, no caso de alguns pastores, nem mesmo isso é observado. São os tais milionários, riquíssimos, os donos das igrejas.

Qual a interpretação que eles dão a essa passagem bíblica? Tente lhes perguntar, se for bem recebido.

Tal atitude é possível, isto é, vender tudo e dá aos pobres? Sim, todavia é altamente improvável que aconteça. Eu nunca ouvi falar de nenhum caso nos meus anos de vida.

(Dizem que um homem muito rico, filho de um príncipe indiano, que viveu entre os séculos V e VI antes de Cristo, abandonou toda a riqueza e foi viver na pobreza, passou a divulgar uma forma simples de viver, sem pompas e sem apegos aos bens materiais. Esse homem chamava-se Siddhartha Gautama, e é conhecido hoje pelo nome Buda, o fundador do budismo.)

Portanto, a Bíblia não pode, não deve, nem precisa ser atualizada, sob pena de, após algum tempo, estar totalmente descaracterizada.

O que precisa ficar claro é que algumas ordenanças são incompatíveis com o desenvolvimento da civilização humana e outras dependem de um completo desprendimento das pessoas quanto às coisas materiais, o que me parece, conhecendo a vaidade dos seres humanos e o seu insaciável desejo de ter cada vez mais, muito difícil, quase impossível, na prática.