domingo, 21 de outubro de 2012

Eleição na floresta

Águia americana
A floresta estava em grande agitação. É que estavam próximas as eleições para escolha dos representantes dos animais no Conselho da Floresta.

Havia muitos candidatos aos cargos no Conselho. Do pequeno e frágil Esquilo ao grande e poderoso Elefante. Nesse meio, cinco animais se destacavam. Eram conhecidos pelos nomes de Águia, Búfalo, Cobra, Dingo e Carneiro.

Interessante é que todos eles professavam os mesmos princípios morais e diziam que eram “a Luz da floresta” e “o Sal das matas”, numa alusão às suas supostas práticas de higiene moral em relação aos demais animais considerados sujos e impuros. Ah, todos diziam também que só eles iriam morar com o “Poderoso Reis dos Animais, o Grande Leão”, quando este estabelecesse o seu grande reino de justiça na floresta. Afirmavam também que os outros animais, que não compartilhavam as suas ideias, seriam jogados no vulcão cheio de lava ardente e lá permaneceriam para sempre.              

Na eleição anterior, Águia tinha sido candidata a um cargo no Conselho da Floresta. Búfalo, seu amigo, dera todo o apoio a Águia. Esta, entretanto, não teve êxito em sua campanha e, evidentemente, não foi eleita.

Passadas quatro primaveras, agora era tempo de nova eleição. Não sei por qual motivo Águia não quis se candidatar novamente. Então foi a vez de Búfalo. Como Búfalo era seu amigo, Águia, agradecida pelo apoio que tivera na campanha anterior, resolveu apoiá-lo agora e trabalhar pela sua eleição.

Acontece que Cobra, de escrúpulos questionáveis, também se candidatou e, por sua característica física furtiva rastejante, dominava várias áreas da floresta, além de ter fácil acesso a animais mais poderosos.

(Se fosse no mundo dos humanos eu diria assim: tem muito dinheiro e muita influência sobre alguns grupos sociais bem organizados, especialmente no que diz respeito às pessoas mais pobres ou carentes e menos politizadas, além do apoio de um grupo político forte)

Cobra, então, resolveu “negociar” – para usar uma palavra mais suave – o apoio de alguns emplumados ou quatro patas.

Chamou Águia e disse: “Abandone a campanha de Búfalo e venha para o meu lado que você será muito bem recompensada. Eu posso conseguir para você a concessão de um grande despenhadeiro a partir do qual você poderá apresentar, para toda a floresta, seus belos e majestosos voos”. Águia pensou um pouco... por instantes hesitou... a proposta era tentadora e a fez balançar. Águia queria muito ter um elevado paredão rochoso para, do alto, mostrar a todos os animais da floresta a sua perícia como exímia voadora. Era uma oportunidade ímpar. Porém o compromisso com Búfalo falou mais alto e ela disse “não”.

Dingo, cão selvagem australiano
Dingo, um jovem cão australiano, ocupava uma posição de liderança entre os de sua idade, apesar de não ser filho do casal alfa, líder da sua matilha.       

Dingo fora um dos primeiros a demonstrar solidariedade a Búfalo e se comprometera com seu projeto político a partir da primeira hora. Eram amigos desde criança.

Cobra, no entanto, com toda a sua sagacidade, apesar da pouca idade, chamou Dingo para uma conversa particular e disse-lhe: “Se você deixar a campanha do Búfalo e passar a me apoiar, eu lhe garanto um bom emprego no Conselho, com boas porções de carne todo mês, caso eu seja vitorioso”. Dingo, ainda sem muita perspectiva de um bom futuro na sua matilha, não teve dúvidas: “Às favas honra e compromisso. Eu quero mesmo é arranjar um bom emprego”. E prontamente disse “aceito”.

Carneiro, por sua vez, era o líder de um grupo de animais. Era ele quem guiava as ovelhas nos momentos da alimentação e também as conduzia às fontes de água. Era ele quem ajudava os fracos e doentes e sempre tinha uma palavra – ou seria um berro? – de consolo quando um predador atacava um membro do grupo, levando-o muitas vezes à morte. Todos os elementos do seu grupo tinham plena confiança em Carneiro. Talvez no mundo dos humanos ele pudesse ser comparado a uma espécie de líder espiritual, a quem todos prestam certa obediência.

Cobra, sempre astuta, viu nessa circunstância uma ótima oportunidade para tirar proveito. Imediatamente convidou Carneiro para um encontro a sós em sua toca e foi logo perguntando: “Qual a maior necessidade do seu grupo social?” Ao que Carneiro respondeu: “Eu preciso muito de uma fonte exclusiva de água para o meu rebanho”.

A matreira Cobra percebeu de imediato a possibilidade de ganhar muitos votos e foi logo propondo: “Você terá sua fonte, tão somente me garanta o seu total apoio e os votos do seu rebanho”. Carneiro, para quem escrúpulos e caráter eram coisas flexíveis, percebeu uma ótima oportunidade de se apresentar como benfeitor do seu grupo. Então, sem demora, respondeu “negócio fechado”.

E Cobra continuou sua caminhada sórdida rumo às eleições. Negociava o apoio de um aqui, dava um presente a outro ali e assim comprava consciências e votos. Os menos desavisados ou crédulos – ou seria interesseiros? – faziam campanha para ela e afirmavam: “Esse é o ofídeo que vai representar o nosso grupo social lá no Conselho da Floresta e vai levantar a bandeira do Grande Leão”.

Passado algum tempo, chegou o dia da eleição. Todos os animais votaram em completa ordem. Do inquieto Suricato ao poderoso Rinoceronte. Juntos, leões e hienas, leopardos e gazelas. Apurados os votos, eis o resultado: Cobra foi eleita com uma expressiva votação. Quanto a Búfalo... coitado, não foi dessa vez. Enquanto Cobra festejava a vitória, Búfalo recolhia-se ao seu pasto, triste e abatido, afinal o mal vencera.

No dia da posse, lá estava Cobra alegre e sorridente, distribuindo simpatia para todos. Em seu discurso de posse dizia assim: “Meus amigos, fizemos uma campanha propositiva, de alto nível e honesta. Temos a consciência tranquila, pois aqui chegamos pela vontade do “Poderoso Reis dos Animais, o Grande Leão”.

Eu estava lá e, do alto de uma árvore, assisti a tudo. Portanto, não há como não exclamar: quanto cinismo e dissimulação de um crápula cheio de peçonha, que pensa que todos os animais são idiotas!

É isso aí. A floresta tem dessas coisas. Então, o que fazer?

Divulgar historinhas como essa para ver se alguns animais despertam para a realidade.

Bom, meus amigos da floresta, qualquer semelhança com a vida dos humanos não é mera coincidência.

Macaco Rhesus, editor do jornal “Diário da Floresta”

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A carta de Miruna Genoino em defesa do pai

A coragem é o que dá sentido à liberdade

Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.

Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?

Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em 
meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas...

Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?

E sigo...

Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?

Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas...

Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas...

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?

Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.

Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.

Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.

Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.

Com toda minha gratidão, amor e carinho,

Miruna Genoino
09.10.2012

(Transcrito de http://www.advivo.com.br/luisnassif, de Luis Nassif)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Carta à minha neta – As estrelas

Imagem registrada pelo telescópio espacial Herschel, divulgada pela Agência Espacial Europeia (AEE), que mostra a formação de estrelas
Querida Paola,

Faz um bom tempo que eu não lhe escrevo. Agora que você completou 5 anos quero aproveitar a oportunidade para lhe falar sobre as estrelas.

Se eu lhe perguntar “O que são as estrelas?”, é razoável admitir que, como qualquer criança a partir dos 4 ou 5 anos de idade, acertadamente você me responderá: “São aqueles pontinhos luminosos que brilham lá em cima no céu noturno”. Acredito que praticamente todas as pessoas em todo o mundo são capazes de identificar as estrelas dessa forma. Mas o Sol, que também é uma estrela, não é um simples pontinho luminoso no céu. Dizendo de outra forma: todas as estrelas também são sóis. Então, por que há essa discrepância tão grande?

Agora complicou, não é Paola? Não, não complicou. A explicação é simples. A diferença é que a “nossa” estrela, o Sol, está muito perto da nossa Terra e as outras estrelas estão muito, muito distantes.

Veja bem, a distância do Sol à Terra é de cerca de 150 milhões de quilômetros. Uma distância muito grande quando comparada às distâncias percorridas na Terra por quaisquer meios de transporte, mas insignificante quando comparada às distâncias das outras estrelas.

Um avião deslocando-se ao redor do nosso planeta, acima da linha do equador, percorreria apenas cerca de 40 mil quilômetros até chegar ao ponto de partida.

Também é uma distância muito grande para o atual estágio tecnológico da humanidade. Os foguetes mais rápidos já projetados pela engenhosidade humana mal atingem a velocidade de 65 mil quilômetros por hora. Portanto, uma nave deslocando-se com essa velocidade em direção ao Sol demoraria 96 dias para chegar ao seu destino final. No entanto ela jamais chegaria lá, pois, levando-se em conta a alta temperatura da “nossa” estrela, que é de cerca de 6.000 °C na superfície, a nave seria destruída muito antes.

Por sua vez, a estrela mais próxima da Terra – depois do Sol, obviamente – é Próxima Centauro, cuja distância é de aproximadamente 40,7 trilhões de quilômetros. Compare as duas distâncias: Próxima Centauro está 271 mil vezes mais distante que o Sol. Portanto, esta é a razão de nós vermos o Sol como essa maravilhosa bola incandescente que nos dá luz, calor e vida, e as demais estrelas apenas como pontos luminosos no céu.

Uma curiosidade: Próxima Centauro faz parte de um sistema triplo de estrelas chamado Alfa Centauro. O interessante é que a maioria das estrelas no céu é parte de sistemas duplos ou múltiplos. Nosso solitário Sol é quase uma anomalia (Carl Sagan, em Cosmos).

Mais uma informação que talvez ajude você a compreender melhor quão distantes estão as estrelas da Terra e porque a luminosidade aparente delas é tão pequena em relação à do Sol. A luz do Sol demora cerca de 8 minutos, só 8 minutos, para chegar até nós, enquanto a luz de Alfa Centauro gasta cerca de 4,3 anos para nos atingir. Na realidade, quando olhamos para Alfa Centauro no céu nós estamos vendo o seu passado há 4,3 anos.

Bom, vamos complicar um pouquinho. Você sabe de que são feitas as estrelas? Acho que não, hein Paola?    

No seu “nascimento”, isto é, em sua origem, as estrelas são formadas por gás hidrogênio, que depois se transforma em gás hélio através de reações nucleares. O hélio por sua vez se transforma em outros elementos químicos.

Tudo começa assim: gigantescas nuvens de hidrogênio começam a se contrair devido a atração gravitacional, que tende a concentrar sua massa em um pequeno volume. O gás é comprimido pelo próprio peso. O gás comprimido se aquece a altas temperaturas. O gás aquecido cria uma reação contrária à implosão pela gravidade. Dá-se, então, um ponto de equilíbrio entre a gravidade que comprime e o gás aquecido que tende a se expandir. E o processo se estabiliza, interrompendo a implosão.

Em seguida, acontece o seguinte fenômeno: as altas temperaturas e as enormes pressões no interior das estrelas provocam reações nucleares que vão transformando o hidrogênio em hélio, e esse processo gera muita energia. E é exatamente essa energia que chega até nós na forma de luz e calor.

Depois de consumido parte do hidrogênio, a gravidade volta a vencer a “queda de braço” e a estrela começa a se contrair mais um pouco. E o processo se repete. O gás é comprimido pelo próprio peso. O gás comprimido se aquece a altas temperaturas. O gás aquecido cria uma reação contrária à implosão pela gravidade. Dá-se novamente o equilíbrio entre a gravidade que comprime e o gás aquecido que tende a se expandir. E as reações nucleares continuam a transformar hidrogênio em hélio e a gerar luz e calor.

Depois de consumido todo o hidrogênio, o processo de fusão continua juntando átomos de hélio e transformando-os em outros elementos, tais como: carbono, oxigênio, nitrogênio e ainda outros mais pesados, por exemplo, ferro, chumbo e urânio.

E esse processo continua até o fim da “vida” das estrelas, cuja “morte” pode gerar três tipos de “filhos”: anãs brancas, estrelas de nêutrons ou os exóticos e estranhos buracos negros.    

Estrelas menores, como o Sol, não atingem temperaturas e pressões suficientes para fundirem o hélio em outros elementos químicos muito pesados.  Depois de consumido todo o hidrogênio, a estrela passará a queimar o hélio e inflará até se tornar uma “gigante vermelha”. Depois de consumido todo o hélio, só restará um pequeno núcleo chamado de “anã branca” composto de carbono e oxigênio. “Nosso” Sol se encolherá até uma “anã branca” do tamanho da Terra.

Estrelas maiores que o Sol terminam seus dias numa espetacular explosão (supernova) e deixam um núcleo chamado de estrela de nêutrons. Estrelas ainda maiores dão origem a objetos esquisitos denominados buracos negros. A gravidade nos buracos negros é tão intensa que nada pode escapar do seu interior, nem mesmo a luz pode escapar das entranhas desses “monstros” do surpreendente Universo em que vivemos.

Bom, Paola, vou parar por aqui, pois as coisas estão ficando mais complicadas até para mim. Quem sabe um dia eu volte a lhe escrever para falar acerca desses estranhos “filhos” das estrelas!

Um beijo do seu avô.

Saulo         

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Por que tentam ferir letalmente o PT?

Eu não sou filiado ao PT, mas sempre fui simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Votei no Lula cinco vezes e também votei na Dilma. E se no futuro, num possível segundo turno de uma eleição para a Presidência da República, estiverem o PT e qualquer um outro partido que se encontra dentro de determinada faixa do espectro político brasileiro, eu não tenho dúvidas em qual deverei votar. Porém, isso não quer dizer que eu estou satisfeito com o PT. Acho que o governo Lula ficou muito aquém do esperado e de certa forma me frustrou. Não se pode esquecer, todavia, que no governo Lula cerca de 40 milhões de pessoas ascenderam na pirâmide social brasileira e o Brasil foi projetado talvez  de forma inédita no cenário internacional.   
 
Quanto ao “mensalão”, se realmente existiu da forma como apregoa a mídia conservadora nacional, foi realmente um grande e inaceitável erro das lideranças do PT e merece uma punição exemplar.

No entanto, eu me pergunto: por que a grande mídia “bateu” tanto no governo Lula e agora “bate” tanto no governo Dilma? Trata-se simplesmente de altruísmo? Será que todos os seus porta-vozes estão realmente indignados com o “mensalão” simplesmente por idealismo? Ou ainda: será que é porque a mídia deseja acelerar o processo de transformação e melhoria das condições de vida dos brasileiros mais pobres?

Talvez o texto abaixo ajude a colocar um pouco de luz nessa questão.   
Leonardo Boff: Por que tentam ferir letalmente o PT?

por Leonardo Boff *

Há um provérbio popular alemão que reza: “você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”. Ele se aplica ao PT com referência ao processo do “Mensalão”. Você bate nos acusados mas tem a intenção de bater no PT. A relevância espalhafatosa que o grosso da mídia está dando à questão, mostra que o grande interesse não se concentra na condenação dos acusados, mas através de sua condenação, atingir de morte o PT.

De saída quero dizer que nunca fui filiado ao PT. Interesso-me pela causa que ele representa pois a Igreja da Libertação colaborou na sua formulação e na sua realização nos meios populares. Reconheço com dor que quadros importantes da direção do partido se deixaram morder pela mosca azul do poder e cometeram irregularidades inaceitáveis.

Muitos sentimo-nos decepcionados, pois depositávamos neles a esperança de que seria possível resistir às seduções inerentes ao poder. Tinham a chance de mostrar um exercício ético do poder na medida em que este poder reforçaria o poder do povo que assim se faria participativo e democrático. Lamentavelmente houve a queda.

Mas ela nunca é fatal. Quem cai, sempre pode se levantar. Com a queda não caiu a causa que o PT representa: daqueles que vêm da grande tribulação histórica sempre mantidos no abandono e na marginalidade. Por políticas sociais consistentes, milhões foram integrados e se fizeram sujeitos ativos. Eles estão inaugurando um novo tempo que obrigará todas as forças sociais a se reformularem e também a mudarem seus hábitos políticos.

Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT? Há muitas razões. Ressalto apenas duas decisivas.

A primeira tem a ver com uma questão de classe social. Sabidamente temos elites econômicas e intelectuais das mais atrasadas do mundo, como soia repetir Darcy Ribeiro. Estão mais interessadas em defender privilégios do que garantir direitos para todos. Elas nunca se reconciliaram com o povo. Como escreveu o historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma no Brasil 1965,14) elas “negaram seus direitos, arrasaram sua vida e logo que o viram crescer, lhe negaram, pouco a pouco, a sua aprovação, conspiraram para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continuam achando que lhe pertence”.

Ora, o PT e Lula vêm desta periferia. Chegaram democraticamente ao centro do poder. Essas elites tolerariam Lula no Planalto, apenas como serviçal, mas jamais como Presidente. Não conseguem digerir este dado inapagável.

Lula Presidente representa uma virada de magnitude histórica. Essas elites perderam. E nada aprenderam. Seu tempo passou. Continuam conspirando, especialmente, através de uma mídia e de seus analistas, amargurados por sucessivas derrotas como se nota nestes dias, a propósito de uma entrevista montada de Veja contra Lula. Estes grupos se propõem apear o PT do poder e liquidar com seus líderes.

A segunda razão está em seu arraigado conservadorismo. Não quererem mudar, nem se ajustar ao novo tempo. Internalizaram a dialética do senhor e do servo.

Saudosistas, preferem se alinhar de forma agregada e subalterna, como servos,  ao senhor que hegemoniza a atual fase planetária: os USA e seus aliados, hoje todos em crise de degeneração.

Difamaram a coragem de um Presidente que mostrou a autoestima e a autonomia do país, decisivo para o futuro ecológico e econômico do mundo, orgulhoso de seu ensaio civilizatório racialmente ecumênico e pacífico. Querem um Brasil menor do que eles para continuarem a ter vantagens.

Por fim, temos esperança. Segundo Ignace Sachs, o Brasil, na esteira das políticas republicanas inauguradas pelo PT e que devem ser ainda aprofundadas, pode ser a Terra da Boa Esperança, quer dizer, uma pequena antecipação do que poderá ser a Terra revitalizada, baixada da cruz e ressuscitada.

Muitos jovens empresários, com outra cabeça, não se deixam mais iludir pela macroeconomia neoliberal globalizada. Procuram seguir o novo caminho aberto pelo PT e pelos aliados de causa. Querem produzir autonomamente para o mercado interno, abastecendo os milhões de brasileiros que buscam um consumo necessário, suficiente e responsável e assim poderem viver um desafogo com dignidade e decência.

Essa utopia mínima é factível. O PT  se esforça por realizá-la. Essa causa não pode ser perdida em razão da férrea resistência de opositores superados porque é sagrada demais pelo tanto de suor e de sangue que custou.

* Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e doutor honoris causa em política pela Universidade de Turim por solicitação de Norberto Bobbio.

(Transcrito de www.viomundo.com.br, de Luiz Carlos Azenha)
 Saulo Alves de Oliveira

sábado, 1 de setembro de 2012

Pequena reflexão sobre a Ciência

A Ciência busca descobrir as leis que regem os fenômenos da natureza, e nessa busca tem descoberto coisas fantásticas.

Eu estava pensando na Força da Gravidade, descoberta por Isaac Newton na segunda metade do século 17.

Vejam que coisa espetacular: a mesma Força da Gravidade que nos mantém presos à Terra, também mantém a Lua presa à Terra e girando ao seu redor.

É ela que permite à Terra ter uma atmosfera.

É ela que também prende a Terra em órbita do Sol.

É ela que permite a formação das estrelas.

É ela que faz com que as estrelas se juntem em aglomerados gigantescos chamados galáxias.

A Força da Gravidade tem influência em todo o Universo.

Eu, infelizmente, não sou um cientista, mas admiro muito o seu trabalho, pois este trabalho proporciona conhecimentos fundamentais acerca de como a Natureza funciona, e tal conhecimento realmente liberta as pessoas das crendices e superstições.

Se não fosse a Ciência talvez ainda hoje nós vivêssemos na escuridão da ignorância que julgava as doenças como castigos de Deus ao invés de considerá-las fenômenos naturais provenientes de mutações genéticas, ou dos vírus, bactérias e vermes que atacam os corpos, ou ainda de distúrbios emocionais.

Lamentavelmente, muitos dos que se valem das descobertas científicas não lhe dão o devido valor.

Ao contrário, a julgam algo de somenos importância.

Quando o paciente sai da UTI e se recupera, é um milagre. Quando o paciente morre, a culpa é da Medicina.

Eu não estou descartando a influência da fé, mas isso é um tema para outra conversa.

“Dai a César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus.”

Eu espero que um dia a geração que substituirá a minha dê à Ciência a importância que ela merece pelo seu trabalho em prol da humanidade.

Saulo Alves de Oliveira

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aos olhos do Pai


Aos olhos do Pai
Você é uma obra-prima
Que Ele planejou
Com suas próprias mãos pintou
A cor de sua pele
Os seus cabelos desenhou
Cada detalhe
Num toque de amor


Você é linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais
Princesa linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais


Nunca deixe alguém dizer
Que não é querida
Antes de você nascer
Deus sonhou com você!


Você é linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais
Princesa linda demais
Perfeita aos olhos do Pai
Alguém igual a você não vi jamais


Princesa...
Aos olhos do Pai





Recentemente, certa pessoa postou no Facebook um vídeo com um hino evangélico cuja letra está em destaque acima. Se você quiser ouvi-lo, basta clicar no link abaixo.

Eu tenho uma netinha que fez cinco anos mês passado. No seu caso, a letra da música se aplica perfeitamente. Porém, não é assim com todas as crianças do mundo.

A alguns meses atrás, minha neta chegou da escola cantarolando a música, com seu jeitinho inocente e gracioso. Confesso que achei engraçado quando a vi, sem muita habilidade para o mister, devido sua pouca idade, tentando cantá-la. Entretanto, ao ouvir a canção no Facebook, fiquei atento a sua mensagem e não posso deixar de fazer alguns questionamentos.

Obviamente, também não posso deixar que minha convicção se transforme na ingenuidade de admitir que todas as pessoas concordarão com as reflexões a seguir.

Como cantar essa música para uma criança que veio ao mundo com um grave defeito físico ou mental? E são muitas e chocantes as deformidades que existem. Não vou citá-las porque a lista é muito grande.

Como cantar essa música para uma criança esquelética, um verdadeiro cadáver ambulante, da África subsaariana ou de outras regiões pobres do mundo, ou mesmo do nosso país?

Pergunta que deveria sensibilizar todos os que crêem em Deus: pode-se dizer que tais crianças são uma “obra-prima” aos olhos do Pai e que Ele “planejou”, com suas “próprias mãos”, “cada detalhe” num toque de amor?

Que amor é esse?

Acho que o(a) autor(a) não teve essa percepção quando fez a letra. Teorizo: talvez o que lhe moveu foi a visão de pequeninos saudáveis, perfeitos e bem alimentados. Seria bom que alguém lhe sugerisse compor uma nova canção para os milhões de crianças com defeitos físicos ou mentais em todo o mundo.

Para mim tal música é uma enorme bofetada nos rostinhos dessas crianças que vieram e que vêm ao mundo todos os dias com graves defeitos físicos ou mentais incuráveis, ou que, com a aparência de cadáveres recém-saídos dos túmulos, morrem de fome pelo mundo afora.

Em homenagem a todas as crianças que sofrem, jamais incentivarei minha neta a cantá-la.

Saulo Alves de Oliveira

domingo, 12 de agosto de 2012

Se eu fosse Deus

Eu não teria criado o mal.

Não teria criado Adão e Eva sabendo que eles desobedeceriam as minhas ordens e que, como conseqüência disso, eu teria de lançar, num futuro distante, bilhões de seus descendentes no inferno por toda a eternidade.

Não teria rejeitado a oferta de Caim, evitando assim o primeiro homicídio.

Não teria mandado o dilúvio para destruir todos os seres vivos que habitavam sobre as áreas secas, preservando apenas Noé, sua família e alguns poucos animais. Eu teria sido seletivo, poupando todos os animais e todos os seres inocentes.

Não teria permitido que Jacó, de uma forma tão vil, enganasse seu pai, para cumprir o meu propósito.

Não teria endurecido o coração do Faraó e assim teria evitado todas as pragas do Egito, especialmente a morte dos primogênitos inocentes.

Não teria instituído o sacrifício de animais.

Não teria proibido que os filhos bastardos entrassem na assembléia do Senhor, como também, inexplicavelmente, seus descendentes, até a décima geração.

Não teria permitido que Israel sob o comando de Moisés cometesse atrocidades contra os midianitas e outros povos.

Não teria aceitado o voto precipitado de Jefté.

Não teria matado o filho de Davi e Bate-seba como punição pelo pecado do seu pai.

Não teria permitido que Davi cometesse a crueldade de cortar os tendões e nervos das pernas dos cavalos dos seus inimigos, tornando-os, portanto, incapazes de andar.

Não teria permitido que duas ursas despedaçassem 42 meninos apenas porque eles zombaram do profeta Eliseu dizendo: “Sobe calvo; sobe calvo”.  

Não teria deixado que Jesus enviasse os espíritos maus para uma manada de porcos fazendo-os cair pelo despenhadeiro no mar, morrendo todos nas suas águas.

Não teria “escrito” a Bíblia deixando margem para interpretações tão divergentes.

Não teria permitido que homens definissem quais livros deveriam fazer parte da Bíblia. Eu mesmo, pessoalmente, teria feito a escolha.

Não teria permitido a Inquisição.

Não teriam existido Nero, Calígula, Stalin, Hitler, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e muitos outros tiranos e ditadores.  

Não teria permitido o Holocausto.

Não teria permitido que os palestinos fossem expulsos das suas terras. Hoje, palestinos e israelenses seriam vizinhos vivendo pacificamente.

Não teria permitido o “11 de Setembro”.

Não existiriam reis e imperadores.

Não existiriam ricos e pobres.

Não permitiria que crianças morressem de fome na África e em outras regiões pobres do mundo.

Não permitiria que inocentes pagassem por crimes que não cometeram.

Não teria permitido a crueldade da natureza selvagem.

Não permitiria que céticos e ateus questionassem a minha existência, apresentando-lhes provas irrefutáveis e inquestionáveis de quem Eu Sou.

Ah... se eu fosse Deus... tantas outras coisas eu teria evitado!

Mas, eu não sou Deus. Sou apenas uma criatura.

Uma voz diz no meu ouvido: como ousa questionar o Criador?

Respondo: eu não estou questionando o Criador, apenas eu não entendo seus desígnios.

A voz novamente me segreda baixinho: quem é você para questionar-lhe os seus desígnios?

Respondo mais uma vez: sou apenas um ser humano... que pensa.

E essas são reflexões do meu ser interior, as quais eu não posso evitar.

Portanto, se eu escondê-las, apenas os outros seres humanos não terão conhecimento.

Saulo Alves de Oliveira