domingo, 8 de abril de 2012

É simples assim? Para os honestos, sim

Há dias venho acompanhando a briga entre duas “estrelas” do mundo neopentecostal. Creiam-me, colocados os dois numa balança de dois pratos – um em cada lado, evidentemente –, do tipo que ainda hoje se usa nas feiras livres, eu não me arriscaria a dizer previamente para qual dos lados a balança penderia. Para este beócio opinante, os dois se equivalem. Como diz o velho ditado: é o roto falando do mal-lavado.

Recentemente a TV de um desses dois senhores apresentou uma longa reportagem fazendo graves acusações contra o outro. A reportagem dizia que o acusado adquiriu, com recursos da Igreja – ou melhor, com o dinheiro dos fiéis, muitos deles pobres de Jó –, uma propriedade com milhares de hectares e um grande rebanho bovino. 

Qualquer que seja o comprador – caso a história se confirme –, o fato em si é uma enorme imoralidade.

Ainda que o bem tenha sido adquirido com recursos da Igreja para a própria Igreja, isso só se justificaria se o objetivo fosse a caridade, ou seja, distribuir carne e outros alimentos para os pobres ou mesmo doar terras para trabalhadores rurais desempregados, ou algo nesse sentido. Não sem antes o conhecimento e aprovação dos fiéis. Entretanto, se a finalidade é o simples investimento, alguma coisa está vergonhosamente errada nessa história. Eu sempre soube que a missão da Igreja é pregar o Evangelho e não investir em bens materiais. Bom, pelo menos era essa sua finalidade nos tempos idos, mas como as coisas mudam... alguns estão fazendo da igreja um trampolim para saltar e descansar nos braços de Mamon.

Por outro lado, se os bens foram comprados com recursos da Igreja para o seu líder, isso é apropriar-se indevidamente do dinheiro da instituição. Dinheiro este solicitado com tanta insistência e de modo tão lastimoso para outras finalidades e doado com tanto sacrifício pelos fieis. (Ressalte-se: valendo-se muitas vezes de métodos no mínimo questionáveis.) A se confirmar esta hipótese, eu acho que alguém deveria fazer alguma coisa. Quem sabe o ministério público devesse intervir para barrar essas vergonhosas ações, não só deste senhor, mas também daquele e de muitos outros que agem suposta, falsa e impunimente em nome de Deus, que, cheguei à conclusão, não interfere neste e em muitos outros casos de mercenarismo. Talvez haja uma explicação racional para isto! Ou, então, pergunte-se: seria o deísmo uma realidade? Bom... não sei... estou apenas conjecturando.     

(Até quando isso vai perdurar? Até quando muitos brasileiros continuarão com a venda que lhes cobre os olhos? Até que ponto chegará esse estado de coisas sem que alguém tome nenhuma providência? Qual será o destino do protestantismo no Brasil?)

Se os bens foram comprados com recursos do próprio líder da Igreja, a situação é mais amena, porém ainda assim tem um aspecto seríssimo a ser considerado. O que faz um homem de origem modesta, que ganha a vida como pastor, acumular uma fortuna suficiente para investir em um bem tão caro? Até onde me é dado saber, pastor ganha salário e ninguém que vive unicamente de salário consegue ficar milionário. Ou não? Será que isto é apenas delírio de uma mente dessintonizada com a realidade dos novos tempos?

Aliás, eu defendo uma tese: é quase impossível alguém acumular fortuna honestamente. Esclareço. Quando eu me refiro a honestidade não pretendo afirmar que as pessoas roubam no sentido mais comum do termo, como é o caso de um assalto a banco ou algo similar, muito embora isso também se aplica ao contexto. Eu me refiro em especial a: receber ou pagar suborno, sonegar impostos, fraudar licitações, contrabandear, desviar recursos de obras públicas, exorbitar nos preços dos produtos, enganar sócios, exorbitar nos juros, enganar intencionalmente o comprador, apropriar-se dos recursos de uma igreja através de artimanhas secretas... e por aí vai. Na realidade todos os exemplos citados são formas sutis ou sofisticadas de roubar. Quantos se refestelam em seus ricos “palácios” construídos sobre fundações de corrupção, roubo e exploração? E todos os domingos vão aos mais diversos templos agradecer as “bênçãos” de Deus! (sic). Irônico, não?    

Acredito que um bom exemplo que contraria a minha tese é o de quem ganha um grande prêmio na loteria. Bem, isso é apenas divagação que merece um comentário específico e à parte. Vou voltar ao assunto em questão e já concluindo.   

Na realidade ao acusado só caberia uma atitude para dirimir todas as dúvidas, além de processar a TV do seu desafeto, obviamente. Vir a público e mostrar, de forma clara e transparente, como foi a transação e qual a origem do dinheiro.

É simples assim? Para os honestos, sim.

Saulo Alves de Oliveira 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ainda é "Tempo de partir"

Considerando a importância e atualidade do assunto, resolvi voltar ao texto “Tempo de partir” de autoria do pastor Ricardo Gondim. Bom seria que todos o lessem com atenção e tirassem suas próprias conclusões. Não deixe de fazê-lo. Basta clicar no link abaixo.
http://www.ricardogondim.com.br/estudos/tempo-de-partir/

Quero destacar mais algumas de suas afirmações e fazer rápidos comentários.
“Não me considero dono da verdade.”
Quantos se consideram receptáculos e os reais detentores de toda a verdade! Somente eles estão certos, todos os demais estão completa e irremediavelmente errados. “Ah, eu e o meu grupo estamos no Caminho, quanto aos demais, a Bíblia diz, jazem no maligno”, afirmam arrogantes. E complementam: “Eu e o meu gueto vamos para o céu, pois somos coluna e firmeza da verdade. Quanto aos demais, vão para o infeeeeeeerno!”

Qual verdade? A dos batistas, presbiterianos, luteranos, pentecostais, neopentecostais, metodistas, católicos, congregacionais, adventistas, anglicanos, universais, mundiais... E quantos mais “istas”, “anos” ou “ais”?  
“Não carrego a palmatória do mundo.”
Os mais novos certamente não conhecem o artefato chamado palmatória. Tal circunstância, entretanto, não lhes seja motivo de tristeza, pois não estão perdendo coisa alguma que lhes possa fazer falta.

De certa forma, a palmatória era um instrumento de tortura. Consistia de uma haste de madeira que tinha em uma das extremidades algo parecido com um pneu em miniatura, também de madeira, e servia para castigar os filhos ou alunos desobedientes. O pai segurava os quatro dedos do filho – polegar livre –, forçava-os um pouco para baixo e a palma da mão ficava bem exposta. Então eram aplicadas várias pancadas com o famigerado instrumento e depois se repetia o mesmo ritual com a outra mão. O torturante “encontro” da palmatória com a mão era conhecido pelo “delicioso” nome de “bolo” – Ah, que “bolo” desagradável! Quem teve o desprazer de vê-la em ação nas mãos dos professores ou pais, afirma que doía bastante.

É desse espírito de palmatória que muitos estão cheios nas igrejas. Sentem prazer em julgar os outros e gostam de “bater” em quem não se conforma ao seu modo de viver e interpretar as Escrituras.

Eu conheço alguns assim – com destaque para certas filhas de Eva –, que se julgam porta-vozes de Deus e se valem dessa suposta prerrogativa para destilarem toda sua arrogância em julgamentos e condenações contra as pessoas. De forma teatral, impostam a voz com toda empáfia e seus corpos assumem trejeitos e movimentos bem peculiares para demonstrar, de forma ridícula, quando não cômica, que estão sendo usadas(os) por Deus. Sinceramente, confesso-lhes que há muito estou farto de tais espetáculos que muitas vezes tocam as raias do absurdo, quando não a ultrapassam, nos púlpitos das igrejas. 

Quando jovem, eu mesmo fui vítima de um desses espíritos de palmatória. Convenhamos, não foi lá uma pancada muito forte, mas machucou um pouco. Era um senhor de cabelos brancos que gostava muito de chamar a atenção para si com gritos estridentes durante os cultos. (Desconfie dessas pessoas. Normalmente são fanáticas.) O dito senhor era perito em “bater” nos jovens. Eu estava todo vestido de preto – camisa, calça e sapatos pretos. Ele se aproximou e afirmou, de forma infantil, descabida e insuportavelmente fanática, que eu estava errado vestindo preto, pois esta cor tinha a ver com as trevas. A minha educação e os seus cabelos brancos calaram-me. Em certas ocasiões, o silêncio é a melhor resposta.       
“Não consigo admirar a enorme maioria dos formadores de opinião do movimento evangélico (principalmente os que se valem da mídia). Conheço muitos de fora dos palcos e dos púlpitos. Sei de histórias horrorosas, presenciei fatos inenarráveis e testemunhei decisões execráveis. Sei que muitas eleições nas altas cúpulas denominacionais acontecem com casuísmos eleitoreiros imorais. Estive na eleição para presidente de uma enorme denominação. Vi dois zeladores do Centro de Convenções aliciados com dinheiro. Os dois receberam crachá e votaram como pastores. Já ajudei em “cruzadas” evangelísticas cujo objetivo se restringiu filmar a multidão, exibir nos Estados Unidos e levantar dinheiro. O fim último era sustentar o evangelista no luxo nababesco. Sou testemunha ocular de pastores que depois de orar por gente sofrida e miserável debocharam delas, às gargalhadas. Horrorizei-me com o programa da CNN em que algumas das maiores lideranças do mundo evangélico americano apoiaram a guerra do Iraque. Naquela noite revirei na cama sem dormir. Parecia impossível acreditar que homens de Deus colocam a mão no fogo por uma política beligerante e mentirosa de bombardear outro país. Como um movimento, que se pretende portador das Boas Novas, sustenta uma guerra satânica, apoiada pela indústria do petróleo.”
Sem mais comentários. O texto fala por si só.

Saulo Alves de Oliveira

domingo, 18 de março de 2012

Pastor diz: chegou o "Tempo de partir"

Eu não conheço o pastor Ricardo Gondim. Nunca li um outro texto ou livro seus. Nada sei acerca da sua capacidade intelectual ou espiritual nem do seu caráter moral, no entanto, devido a um comentário que li no Facebook, de certa forma negativo, cheguei ao texto “Tempo de partir”, de sua autoria.

Achei-o simplesmente impactante. Transmitiu-me muita sinceridade e compromisso com a moral. Julgo que todos os cristãos evangélicos, sinceros em sua fé, ou qualquer pessoa que fundamente sua vida em princípios morais elevados deveriam lê-lo e fazer uma reflexão em cima de suas palavras. Não deixe de fazê-lo. É só clicar no seguinte link: http://www.ricardogondim.com.br/estudos/tempo-de-partir/.

A minha história de vida é bem diferente da sua e certamente não tenho o mesmo preparo intelectual e o mesmo conhecimento teológico. Seguimos caminhos totalmente diferentes no que diz respeito a atividade profissional, porém faço minhas as suas palavras.

Para não ficar cansativo, quero destacar apenas duas afirmações do pastor Ricardo Gondim e fazer alguns comentários.
“Não consigo admirar a enorme maioria dos formadores de opinião do movimento evangélico (principalmente os que se valem da mídia).”
Nem eu. Na realidade alguns me inspiram asco. Especialmente um dos mais famosos. Recentemente ele aparece em um vídeo no YouTube com uma suposta endemoninhada. Ele faz perguntas e gracejos e o “demônio” lhe diz que na igreja de um dos seus desafetos quem opera é Satanás. Só os tolos acreditam que aquilo é real e não se trata de uma farsa. E, lamentavelmente, sou forçado a admitir – por mais perturbador que pareça –, muitos acreditam. Quanto a mim, o sentimento que me invade é de nojo, repugnância.

De tais indivíduos eu não tenho compaixão, pois eles não são inocentes, sabem o que estão fazendo. O que eu sinto é realmente repulsa e deles eu quero distância. Verdadeiros canalhas, crápulas, manipuladores dos incautos! Só pensam em dinheiro. E corjas de bajuladores os acompanham ajudando-os a sugar o dinheiro dos trouxas, muitos destes, reconheçamos, sinceros. Pedem dinheiro de forma desavergonhada na mídia e nos templos. Até quando os brasileiros permanecerão com a venda que lhes cobre os olhos?

Dizem que têm fé. Que tipo de fé? Precisam de recursos? Se tivessem fé fariam como Jesus ensinou em Mt. 6.6: orariam e pediriam em secreto. E não exporiam o Evangelho ao ridículo como o fazem de forma tão descarada. Acho que para eles o que vale é a máxima que diz “é pedindo que se recebe”, pois aquilo que pregam, isto é, a fé que opera milagres, parece que nem eles acreditam. Se não fosse assim, orariam em secreto e receberiam o dinheiro de que tanto gostam, sem precisar se expor de forma tão aviltante e mercenária. São os “Tio Patinhas” evangélicos.

Repito o que disse em outro comentário. Para os seres abjetos que se aproveitam da ingenuidade de um povo sofrido, que se apega a qualquer coisa na esperança de resolver seus problemas – afetivos, financeiros, de saúde... –, o meu desejo é que eles se arrependam das suas práticas ignominiosas. Caso contrário, eu espero, com todo o ardor da minha alma, que no mais profundo do inferno, junto ao trono de Satanás, o rei das trevas, haja um lugar especialmente reservado para todos eles.   
“Não suporto conviver em ambientes onde se geram culpa e paranoia como pretexto de ajudar as pessoas a reconhecerem a necessidade de Deus.”
Quantos sofrem desnecessariamente por não alcançarem certas coisas, atribuindo tal fato a falhas em sua relação com Deus! Coisas estas que as pessoas alcançam, ou não, por razões meramente naturais e não porque têm fissuras em seu caráter espiritual ou moral.

Quantos são induzidos a humilhações aviltantes para obter o favor de Deus! Parece que Deus se compraz em ver seres humanos em demonstrações exacerbadas de humilhação física. Deus só atende ao ser criado se este se colocar genuflexo com o rosto no chão, derramar “rios e rios” de lágrimas, jejuar por dias e dias a fio, orar, orar, orar, orar... e orar, para só então ter – ou não, ressalte-se –, após anos e anos de insistência e prostração, ou mesmo décadas e décadas depois, seu problema resolvido.

Não seria mais honesto e moral admitir-se uma relação racional entre criatura e Criador? Ou um diálogo sincero e racional em que o ser apresenta suas razões e necessidades ao Ser, e Este, do alto de sua onipotência e onisciência, responde ou não àquele de forma clara e transparente, sem, muitas vezes, o silêncio inquietante – e conformista –, como supõem alguns?     

Concordo totalmente com o que diz o Pastor Ricardo Gondim. Por todas as razões apresentadas por ele e outras mais, talvez eu já tenha partido (?) e porventura já me encontro em um patamar diferente daquele em que ele ainda se encontra (?). Só posso chegar até aqui em minhas afirmações. Quem lê entenda e tire suas próprias conclusões, se puder, obviamente.
 
Saulo Alves de Oliveira

sábado, 3 de março de 2012

Cristão iraniano é condenado à forca

Pastor Youssef Nadarkhani condenado à morte no Irã
Comenta-se no noticiário e nas redes sociais que um pastor iraniano foi condenado à forca por causa de sua fé cristã. Como o Irã é um país extremamente fechado, eu não sei o quanto há de verdade nessa notícia. Entretanto o meu comentário a seguir terá como base o pressuposto de que a notícia é totalmente verdadeira, ou seja, o Pastor está sendo julgado ou foi condenado por conta de sua fé.

A pena de morte não é exclusividade do país dos aiatolás. Outros países a adotam, dentre eles os EUA, formado, em sua grande maioria, por cristãos. É verdade que neste último caso há todo um processo judicial legal, com amplo direito de defesa, que muitas vezes leva anos, até culminar ou não com a sentença de morte. 

Eu, pessoalmente, sou contra essa penalidade extrema, apesar de, em alguns casos, me sentir tentado a dar um passo atrás em minha convicção. Mas este momento não me enseja oportunidade de tratar da pena de morte como castigo para crimes ditos hediondos. Ficará para outra ocasião.

Até onde me foi dado saber, há um processo legal naquele país – refiro-me ao Irã – em que o Pastor é réu, contando, inclusive, com advogado de defesa.

Apesar disso eu julgo um absurdo no mais alto grau e uma afronta à dignidade humana alguém ser condenado à morte pelo “crime” de ter uma fé diferente da grande maioria dos seus concidadãos ou ainda pelo fato de não acreditar no livro sagrado ou no Deus de outrem ou mesmo discordar de qualquer coisa que diga respeito à religião. Isto é viver, em pleno século 21, no obscurantismo das mais densas trevas da Idade Média, ainda que os fundamentos sejam a cultura ou o código de leis de um país.   

Lamentavelmente o próprio cristianismo já agiu de modo similar, especialmente na Idade Média. Hoje, entretanto, as coisas evoluíram, apesar de existirem muitos radicais fundamentalistas, notadamente em alguns estados americanos – segundo dizem – no chamado “cinturão bíblico” e em outras regiões do mundo, os quais, no entanto, não chegam ao clímax da estupidez em sua intolerância religiosa. (?)

Em 1600, o padre Giordano Bruno foi condenado à fogueira pela Inquisição Católica. Seu crime: afirmar que “Há incontáveis sóis e uma infinidade de planetas que giram em torno de seus sóis como nossos sete planetas giram em torno do nosso”, ou seja, Bruno acreditava que existiam outros mundos, em desacordo com a interpretação da Bíblia feita pela Igreja de Roma. Em 1633, Galileu Galilei só não teve o mesmo destino porque negou oficialmente aquilo que sabia ser a verdade, isto é, que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário como pensava a Igreja da época.

É profundamente triste e chocante que, em pleno século 21, qualquer ser humano seja condenado à morte por professar uma fé que está em desacordo com a maioria. Não apenas por ser um cristão evangélico. Causar-me-ia igualmente profunda consternação se se tratasse de um padre católico, um rabino, um monge budista, um seguidor do hinduísmo, um espírita ou um crente de qualquer outra religião.

Todas as pessoas devem ter plena liberdade de professar sua fé, em qualquer lugar do mundo, sem o perigo de sofrer a mínima sanção. Deve ser-lhe assegurado inclusive, se for o caso, o direito de não ter religião ou mesmo de não acreditar em Deus.

Certamente lá no Irã eles estão agindo dentro das leis que regem seu país, mas é simplesmente algo que ultrapassa as raias do absurdo e agride frontalmente à moral e envergonha a civilidade da raça humana.

Ninguém pode ser julgado segundo os ditames de um livro sagrado, seja ele a Bíblia, o Alcorão, a Torá ou outro qualquer. Por isso eu defendo com veemência o estado laico. Sou a favor da total e explícita separação entre Igreja e Estado. Culto ou missa se faz nos templos e nas residências e não nas repartições públicas. Símbolos religiosos se mantêm nos templos e nas residências e não nas repartições públicas.

Eu espero que a parte do Islã que vive o século 21 sobrepuje os radicais que ainda “vivem” na Idade Média e que o Islamismo evolua tal qual a grande maioria do Cristianismo, não obstante algumas atitudes controversas de alguns cristãos em postos de comando do mundo.

A todos os cristãos evangélicos eu deixo as seguintes perguntas para reflexão: Você estaria consternado se a condenação à morte fosse de um padre católico ou um monge budista ou um líder de qualquer outra religião? Se você viesse a descobrir que o pastor condenado não acredita na doutrina da trindade, seu espírito continuaria inquieto com a situação? Você assinaria um pedido de interferência – não sei se a palavra correta seria esta – do Governo Brasileiro se se tratasse de um padre católico ou um monge budista ou um líder de qualquer outra religião? E se fosse um ateu, você acharia injusto alguém ser condenado à morte por não acreditar em Deus?

Desculpe-me, porém se você respondeu “não” a uma dessas questões, na minha opinião – e posso estar equivocado, evidentemente – o que lhe move não é a defesa do princípio fundamental da liberdade religiosa em qualquer circunstância, inclusive o direito de não ter religião, mas simplesmente o corporativismo.

Saulo Alves de Oliveira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sejamos humildes, não somos o centro do Universo

E estamos aqui há pouquíssimo tempo.

Há pessoas que julgam os cientistas arrogantes, se não todos, pelo menos grande parte. Eu sei que os indivíduos que alcançam o topo do conhecimento em suas respectivas áreas de estudo – vou citar apenas cinco exemplos: os britânicos Stephen Hawking e Richard Dawkins, o americano Francis Collins e os brasileiros Marcelo Gleiser e Miguel Nicolelis – são pessoas que estão bem acima da média da inteligência dos demais mortais (média esta que, com certeza, é o meu limite, se não for muita pretensão e ousadia da minha parte admiti-lo). Talvez isso faça inchar a sua autoestima, tal qual muitos pilotos e médicos. Aqueles, porque, lá de cima, veem as pessoas aqui embaixo e por isso se sentem superiores no seu “olimpo”. Quanto a estes, talvez se julguem os “senhores” das vidas dos seus semelhantes pois muitas vezes as têm em “suas mãos”.

É possível que as características especiais dessas profissões propiciem esses egos inflamados em tais profissionais, penso cá com meus botões. Mas será isso cem por cento verdadeiro? Não. Eu tenho plena convicção de que muitos cientistas, pilotos e médicos são seres humanos que sintetizam em seu caráter o significado altruísta da palavra “humano”. Acredito, inclusive, que os cinco exemplos citados acima estão dentro dessa categoria.

Parece-me que pelo menos duas áreas da ciência dão aos seus estudiosos a verdadeira dimensão da pequenez do homem ou de sua proximidade com todos os seres vivos que habitam nosso planeta. São elas: a biologia e a astronomia.

A primeira, porque estuda a origem da vida e de todos os seres vivos e sabe que, em virtude de sua origem comum, todos estão interligados, incluindo nós humanos. Portanto não há razão para reivindicarmos a primazia dentre todos os seres vivos que habitam a Terra.

E a segunda porque perscruta o Universo e pode concluir que não ocupamos uma posição privilegiada no tempo e no espaço cósmico. Nós chegamos nos últimos segundos do dia cósmico e habitamos uma região que nada tem a ver com o que pensavam os antigos, ou seja, a Terra como centro do Universo. Orbitamos uma estrela que não é das maiores e é apenas uma dentre cerca de 200 bilhões de outras na galáxia da Via Láctea. “Nosso” Sol localiza-se aproximadamente no meio da distância entre o centro da galáxia e sua periferia, o que não é, portanto, nada especial. E a galáxia da Via Láctea é apenas mais uma entre bilhões e bilhões de outras galáxias que existem no Universo.

Habitamos um insignificante planeta chamado Terra – ainda que belo, até quando não sei, pois o homem o está destruindo –, que é apenas um grão de poeira na vasta imensidão do espaço cósmico.

E por tudo isso nada justifica nosso orgulho e o pretenso status de obra-prima de toda a criação.

Portanto, o único sentimento que deve nos inspirar é “Humildade”.

Assista ao vídeo abaixo e depois diga se eu tenho ou não razão.
http://www.youtube.com/watch?v=HRlQ1_KRCCw

Saulo Alves de Oliveira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Faça o que eu mando, não o que eu faço

A revista CartaCapital de 18/01/2012 deu a seguinte notícia: 
"Em 11 de janeiro, um cientista nuclear iraniano foi assassinado na capital Teerã por assassinos de motocicleta que atiraram uma bomba em seu carro. É o terceiro a morrer em atentado, sem contar as misteriosas explosões que destruíram uma base de mísseis no local e danificaram uma instalação nuclear em Isfahan. O aiatolá Ali Khamenei acusou Israel e os EUA, e poucos, mesmo no Ocidente, duvidam de que ele tenha razão. Segundo o jornal francês Le Figaro, o Mossad [Serviço Secreto de Israel] tem recrutado rebeldes para cometer atentados a bomba contra o regime islâmico.”
Sei que esse tipo de crime dificilmente será desvendado, como tantos outros semelhantes, mas para mim não será surpresa se algum dia vierem a descobrir que os filhos do Tio Sam ou os descendentes de Jacó foram os seus orquestradores.

Os EUA, Israel e a ONU pressionam o Irã para suspender seu programa de desenvolvimento de energia nuclear. Temem que aquele país brevemente tenha condições de testar uma arma nuclear. O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos. Se eu acredito? Somente se eu fosse uma criança diria “sim”, mas também não estou dizendo “não”. Prefiro uma posição agnóstica quanto a isso.

Eu não tenho procuração para defender o Irã, inclusive faço sérias restrições à falta de liberdade naquele país e ao fundamentalismo religioso de grande parcela do mundo muçulmano, o que poderá levar o planeta a uma catástrofe bélica sem precedentes.

(Eu critico o fundamentalismo de qualquer vertente religiosa, inclusive do cristianismo ou judaísmo, pois são tão maléficos quanto o dos seguidores de Maomé.)

Mas os EUA e Israel não têm autoridade moral para exigir que o Irã pare seu programa nuclear. Têm o poder das armas, dos porta-aviões movidos a energia nuclear e o poder econômico para impor sanções ao mundo.

Os EUA têm o maior arsenal nuclear do planeta e planeja gastar cerca de US$ 700 bilhões de dólares com armamento nuclear ao longo da próxima década (veja http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1000072-potencias-nucleares-planejam-renovar-arsenais.shtml). E Israel também é detentor da tecnologia das armas nucleares. É a prática perversa, nojenta e hipócrita da máxima “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.

O Brasil, por sua vez, tem autoridade moral para exigir que a antiga Pérsia pare seu programa nuclear para fins bélicos – se é que ele é real –, pois não tem armas nucleares.

(Talvez devesse tê-las como último recurso de dissuasão. Se as grandes potências, encabeçadas pelo Tio Sam, a pretexto de que nós não estamos cuidando bem da Amazônia ou por causa do seu potencial energético e aquífero ou da sua biodiversidade, decidirem que aquela região é um bem comum a toda humanidade e resolverem invadi-la, como o Brasil irá defendê-la?)

Entretanto, o Brasil ainda não tem peso político para contrabalançar a força das grandes potências. O então Presidente Lula, com o apoio da Turquia, tentou um acordo com o Irã em 2010, como descreveu a revista ISTOÉ Dinheiro nº 659:
“Ao insistir no diálogo a todo custo com o Irã, inclusive pessoal – ninguém sai ileso ao apertar a mão de ditadores, inimigos da democracia e violadores de direitos humanos, adjetivos atribuídos a Ahmadinejad –, Lula venceu resistências e obteve concessões dos iranianos. Estes aceitaram em transferir parte de suas reservas de urânio enriquecido para a Turquia. Não resolve a questão, mas é um bom avanço na direção de uma solução negociada que impeça um ataque militar ao Irã.”
Lula em Teerã, capital do Irã, em maio/2010
Lamentavelmente, o acordo foi boicotado pelas grandes potências, não sei se por ciúme ou porque precisam de um pretexto para “colocar as mãos” no petróleo do Irã a todo custo, inclusive de uma guerra.   

Sou contra a guerra. Acho a guerra uma das maiores imbecilidades perpetradas pelo ser humano, porém, lamentavelmente, ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Só os canalhas e os de espírito pequeno a incentivam. E há muitos por aí, pelo mundo afora. Moram em castelos ou palácios coloridos pelo arco-íris a girar, porém a história os mostrará como a escória da civilização.

Acho que o mundo deveria se ver livre das armas nucleares. Se o Brasil e o Irã não podem tê-las, tampouco os EUA e Israel e as outras nações têm esse direito. Algo diferente disso é pura hipocrisia.

Para os EUA, já que se trata de uma nação cristã, há uma mensagem bem objetiva do Mestre do cristianismo, que cabe perfeitamente na questão. Todavia, parece-me que, quando se trata de questões de estado, isso e nada têm o mesmo valor. Mas ei-la assim mesmo:
“E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?
Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão.”
Resta-me, entretanto, uma grande dúvida: será que as águias da Casa Branca e do Pentágono consideram os iranianos/muçulmanos seus irmãos?

Quanto a Israel..., bem, quanto a Israel não sei o que dizer. Certamente a mensagem acima não lhe toca, pois ainda aguarda o Messias. Talvez para os falcões de Jerusalém o que vale mesmo é a máxima do Mestre do judaísmo: “Olho por olho; dente por dente”.

Saulo Alves de Oliveira

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Altruísmo ou proselitismo?

Dia desses eu estava assistindo um culto em uma igreja evangélica. Era um culto denominado “de missões”. Lá estava presente um missionário brasileiro que trabalha em um país africano muito pobre, o que não é, lamentavelmente, a exceção naquele sofrido continente. Algo me chamou muito a atenção em suas palavras.

A infraestrutura do país é precaríssima. Muitas pessoas moram em aldeias onde não há energia elétrica, água potável, rede de esgotos, estradas, hospitais e, ressalte-se, escolas, dentre outras benfeitorias que dignificam a vida humana.

Segundo o missionário, a grande maioria dos habitantes daquele país é formada por muçulmanos ou animistas. Há pouquíssimos cristãos lá, e protestantes menos ainda. E as pessoas normalmente não aceitam a mensagem cristã evangélica.

Então, qual é a estratégia adotada pelo missionário e sua esposa? Fundar escolas para ensinar o conhecimento secular às crianças, promover atividades esportivas e, aproveitando-se desse contexto de carência, levar-lhes a mensagem cristã. Como o país não tem condições de oferecer escolas aos seus filhos, e os pais são muito pobres, só lhes resta aceitar a situação. Em casa, Alá é Deus; na escola, Jesus é Deus.

O missionário contou que o líder de uma aldeia muito pobre procurou sua esposa e pediu-lhes que instalassem em seu povoado uma escola para suas crianças. A missionária então respondeu: “Tudo bem, desde que nós possamos ensiná-las também o cristianismo, caso contrário não tem escola”. Não lembro qual foi a atitude do chefe da aldeia, porém me lembrei do livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. Alguém saberia dizer o porquê?

Muitos vibraram euforicamente com a notícia. Logicamente da forma comum em igrejas pentecostais. Para muitos, uma brilhante ideia. Entretanto, pelo menos uma pessoa ali questionava aquela atitude. E disso eu tenho certeza absoluta.

Vamos fazer um exercício simples de sensatez. Coloque-se no lugar daquelas pessoas. Considere-se numa situação reversa. Imagine-se um cristão muito pobre que mora num país de precaríssimas condições de educação. Chega um missionário muçulmano em sua terra – ou de qualquer outra religião –, e lhe propõe oferecer educação secular aos seus filhos menores em troca de introduzir na cabeça dos pequenos os ensinamentos do Alcorão, isto é, Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta. Jesus é importante, no entanto é apenas mais um profeta. É isso ou nada, decreta o missionário, sem mais delonga. Como você se sentiria? É um exercício de virtude saber colocar-se no lugar do outro.

Não deveria o Evangelho ser levado somente a pessoas capazes de decidir com toda a liberdade se o aceitam ou não? Doutrinar crianças alheias sem o consentimento livre dos seus pais é honesto e moral?

A semana passada eu li em um site cristão: “Projeto missionário leva sistema de tratamento de água para comunidades desfavorecidas”. Se você quiser ler a notícia,  acesse o site “gospelmais.com.br.”

Eu achei espetacular a notícia, uma grande iniciativa que merece todos os aplausos, mas ao final me decepcionei.

Pelo que eu entendi, trata-se de um grupo cristão de engenharia, que elabora projetos de água potável em todo o mundo e, associado a uma missão cristã, instala sistemas de tratamento de água em regiões carentes do mundo. Porém, ao final da notícia, me pareceu – salvo um julgamento precipitado da minha parte – estar a verdadeira intenção do projeto: proselitismo (“Eles usam a abertura obtida com o projeto da água para levar a mensagem do cristianismo para esses locais”).

A miséria e a pobreza no mundo são tão grandes que quaisquer iniciativas para ajudar os mais necessitados devem sempre ser incentivadas. Mas a virtude está em ajudar os outros sem segundas intenções. Será que não é possível ajudar as pessoas simplesmente por altruísmo, sem proselitismo? Não julgo moral aproveitar-se da miséria de pessoas para “impor-lhes” uma fé, qualquer que seja ela, inclusive o cristianismo de vertente evangélica.

Saulo Alves de Oliveira